No Money No Honey (by Karl)

O que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro for, tão grande é a minha força. As propriedades do dinheiro são minhas – possuidor dele – propriedades e forças essenciais. Portanto, o que eu sou e consigo não é de modo nenhum determinado pela minha individualidade. Eu sou feio, mas posso comprar para mim a mulher mais bonita. Portanto, eu não sou feio, pois o efeito da fealdade, a sua força intimidante, é anulado pelo dinheiro. Eu sou – segundo a minha individualidade – manco, mas o dinheiro proporciona-me 24 pés; não sou, portanto,

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Karlitos em 1860.

manco; eu sou uma pessoa má, desonesta, sem escrúpulos, desprovida de espírito, mas o dinheiro é estimado, portanto também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, portanto o seu possuidor é bom, o dinheiro dispensa-me além disso o trabalho de ser honesto, sou portanto presumido honesto; eu sou desprovido de espírito, mas o dinheiro  é o espírito real de todas as coisas: como havia o possuidor dele ser desprovido de espírito? Além disso, ele pode comprar para si a gente rica de espírito, e quem tem o poder sobre os ricos de espírito não é ele mais rico de espírito que o rico de espírito? Eu, que pelo dinheiro consigo tudo aquilo por que um coração humano anseia, não possuo eu todos os poderes humanos? Não transforma, portanto, o meu dinheiro todas as minhas impotências no seu contrário? 

Karl Marx, Manuscritos económicos e filosóficos de 1844, Edições Avante, p. 149.

Tempo e dinheiro

Tempo é dinheiro, logo dinheiro é tempo. E se assim é, é um contrassenso perder tempo para ganhar dinheiro. Nenhum dinheiro substitui o tempo perdido a trabalhar, a não ser que o trabalho tenha por finalidade a produção de tempo livre.

Há quem pense que se trabalha para ganhar dinheiro, mas isso é ver a questão de uma perspetiva algo redutora e muito antiquada. Trabalha-se para se poder usufruir melhor do tempo. Se o dinheiro serve para alguma coisa, é para ganhar tempo, ou então para usá-lo melhor. Senão veja-se: o dinheiro utiliza-se para não ter que cozinhar, não ter que cuidar de filhos ou parentes, não ter que costurar para andar vestido, para viajar, utilizar meios de transporte mais rápidos, fazer férias, obter conhecimento, e de um modo geral pagamos para que façam as coisas por nós.

O erro comum é confundir a qualidade do tempo com a sua quantidade, mas tudo se reduz à possibilidade de ter tempo para usar, e poder usá-lo da melhor forma possível. Ao focar na qualidade do tempo corre-se o risco de perder de vista o essencial, que é ter tempo para gastar. Se o tempo é por natureza algo que dura, terá que ter uma certa quantidade para que se possam produzir diferenças qualitativas no seu aproveitamento, e como qualquer idiota deduzirá, é melhor aproveitar maiores momentos de tempo de qualidade do que momentos menores. Importa é não perder de vista a reversibilidade do dinheiro em tempo, sem o que o trabalho se transforma numa fadiga vã, perversa e sem sentido. É da acumulação eterna que ficamos prisioneiros, se não transformamos o dinheiro em tempo.

O dinheiro não passa de um meio para outras coisas. Ninguém no seu perfeito juízo valoriza o dinheiro em si. O tempo (e o espaço, diria Kant) também é um meio, mas não de modo apenas instrumental. O tempo não serve para atingir alguma outra coisa, é nele, no próprio tempo, que tudo acontece.

Proponho então que se experimente pensar ao contrário: dinheiro é tempo. A finalidade do trabalho não é a produção de dinheiro, mas de tempo. Se não resultar mais cedo ou mais tarde na produção de tempo livre, o trabalho perde o sentido, e a vida toma um de dois caminhos: ou se trabalha para sobreviver e se vive para trabalhar, ou existe-se ao modo dessa espécie particularmente degenerada que é o homo consumericus.

Eu pessoalmente escrevi este texto precisamente porque o trabalho me retira o tempo que quero e o dinheiro não o substituir, mas a deteção de um problema é um passo e a sua solução é outro.