Perder o medo

Citação

“A melhor maneira de alcançar a consciência suprema é perder o medo da vida. Perder o medo ao que nos falta. Sair do terror económico. Perder o medo à loucura. Etc. Como é que se perde o medo? Dizendo-te: «Sempre que tenho que escolher entre fazer e não fazer, devo escolher fazer, ainda que me engane». Se nada faço frustro-me. Se faço e me engano, pelo menos fico com a experiência.”   

kittyandjodo

Alejandro Jodorowsky

                                                  

 

 

Bert Hardy

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Mírame y sé color

The eldest of seven children, Bert Hardy rose from humble working class origins in Blackfriars, London, leaving school at age 14 to work for a chemist where he learnt how to chemically process photos.

After selling 200 prints of King George V and Queen Mary passing by in a carriage, he went on to freelance for The Bicycle magazine, saving up to buy a second-hand, small-format Leica 35 mm camera which was to change his life.

Self taught and using the small Leica camera instead of the traditional larger press cameras, Hardy was recruited by the editor of Picture Post, Tom Hopkinson, in 1941. He went on to become the Post’s Chief Photographer, earning his first photographer credit for a February 1941 photo-essay about Blitz-stressed fire-fighters.

Hardy later served as a war photographer in the Army Film and Photographic Unit (AFPU) from 1942 until 1946, covering the D-Day landings in…

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Por uma arte inferior

O autor deste blog, já cansado após tantos posts, desgastado pela infrutífera luta diária de tentar transformar o trabalho em tempo livre, achou que ficava bem acabar/começar por escrever uma espécie de manifesto pela arte inferior. Não se sentindo já capaz, resolveu expor as ideias subjacentes ao assunto de modo desordenado e sem grande adorno.

O impulso criativo faz parte da essência do homem. Não se sabe bem o que é a essência do homem, mas para Aristóteles (a minha pesquisa ainda está em curso) deveria ser algo que lhe fosse próprio, isto é, uma caraterística que não partilhasse com outros animais. Seria portanto um certo modo de atividade da alma racional, e até aqui não há contradição com o Filósofo. Ouvi dizer também que para Espinosa a essência do homem é o desejo, mas nunca encontrei a citação. Também não me parece incompatível, pois o desejo parte de uma carência, e portanto aspira à criação do que não existe ou à conquista do que não se tem. Já Gilberto Gil em jovem fez uma canção onde diz “a morte é o nosso impulso primitivo”. Ora, se a morte é a finalidade última da vida, aquilo para que todos os seres naturalmente tendem, é certamente mais poético ir ao seu encontro praticando uma forma de autodestruição criativa. É isso a vida, não? Mas divago.

O essencial da ideia é que a exigência social de que a arte seja boa é provavelmente o maior impedimento a que todos os seres humanos expressem a sua criatividade. É do senso comum que as crianças são mais criativas porque ainda não interiorizaram os padrões de gosto, as comparações, as opiniões dos outros, etc., e se limitam a fazer o que lhes dá na real gana. Não só a inocência com que experimentam todo o tipo de arte de que ouvirem falar é ago que não se devia perder, como é o contexto sem pressão em que um talento melhor se pode exercitar, adestrar e florescer.

Lembro também uma passagem do Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens de Rousseau em que fala da festa como o lugar do surgimento da desigualdade. A partir do momento em que surge alguém que dança ou canta melhor que os outros, atraindo sobre si as atenções, passa a ser tido em maior estima que os outros. É na festa que os seres humanos se habituam a observar os outros e a ser observados, e procuram alguma forma de se destacar na estima dos outros, e sobressair pela beleza, eloquência ou algum outro talento.

Agora, imagine-se uma festa em que todas as pessoas cantam e dançam sem se importarem se dançam bem ou mal, nem com o olhar dos outros ou o que pensam, nem em julgar o talento alheio. Era capaz de ser divertido, não? Poderá parecer uma situação impossível, mas é simplesmente uma festa onde se pretende integrar e aceitar todos, ao invés de conter um subtexto exibicional e competitivo. E uma reunião mais alegre, inocente e isenta de vaidade. Certamente que não pretendo exportar o meu modelo de festa para, por exemplo, Ibiza, mas parece-me apropriado para uma reunião de amigos e conhecidos. Na menor das hipóteses como um exercício, uma variação. Onde tocam, cantam e dançam os melhores temos o concerto, a exibição ou performance. Onde todos participam e há uma grande dose de tolerância para com as imperfeições de cada um, temos o ritual e a comunhão.

O que eu falo é de cada um cantar tão bem quanto consegue, e que os outros tentem apreciar a singularidade da sua voz, a honestidade da sua tentativa, enfim, que não o condenem de pronto à categoria de cantores horríveis. Ok, têm razão, é difícil ouvir a voz de alguém que desafina de modo particularmente irritante. Será mais razoável dizer-lhe que se cale. Porém do facto de ser um mau cantor não se segue que o seu canto seja sem valor. Por exemplo, o bardo Assurancetourix da aldeia de Astérix, é alguém que ninguém suporta ouvir, porém, é um personagem querido de todos. Porquê? Porque canta. Ainda que ninguém goste de o ouvir, gostam de amordaça-lo, amarrá-lo, impedi-lo.

E é um bocado dentro dessa filosofia que eu me encaro enquanto escritor. Uma vez que é algo que gosto de fazer, escrevo quando me apetece. Transformando isso num enunciado geral, o facto de ser mau numa coisa não deve impedir alguém de o fazer se tem vontade. É a única forma de vir a ser melhor, ou decidir-se por outra forma de se evidenciar perante os seus companheiros.

Isso e aqueles poetas regionais, encarados com alguma condescendência pelas autoridades literárias instituídas, que versejam e dessa forma contribuem para criar um folclore, e que encontram o seu público na gente simples. Também faz parte. E os versos dos adolescentes apaixonados, que os próprios renegam mas guardam secretamente anos mais tarde, quem vai dizer que não valiam a pena ter sido escritos? Gostava pois que este texto de abertura/encerramento incitasse os leitores a fazerem arte, nem que má, a procurarem meios de expressar a sua criatividade. Penso que o resultado seria sentirem-se melhor com a vida, pois estariam a responder a um impulso necessário à natureza. Que tanta gente o esqueça quase sempre é uma das tragédias da civilização. E se este texto não levar ninguém a dedicar-se à pintura naïf, fica como a defesa mais ou menos decente de uma ideia.

Tempo e dinheiro

Tempo é dinheiro, logo dinheiro é tempo. E se assim é, é um contrassenso perder tempo para ganhar dinheiro. Nenhum dinheiro substitui o tempo perdido a trabalhar, a não ser que o trabalho tenha por finalidade a produção de tempo livre.

Há quem pense que se trabalha para ganhar dinheiro, mas isso é ver a questão de uma perspetiva algo redutora e muito antiquada. Trabalha-se para se poder usufruir melhor do tempo. Se o dinheiro serve para alguma coisa, é para ganhar tempo, ou então para usá-lo melhor. Senão veja-se: o dinheiro utiliza-se para não ter que cozinhar, não ter que cuidar de filhos ou parentes, não ter que costurar para andar vestido, para viajar, utilizar meios de transporte mais rápidos, fazer férias, obter conhecimento, e de um modo geral pagamos para que façam as coisas por nós.

O erro comum é confundir a qualidade do tempo com a sua quantidade, mas tudo se reduz à possibilidade de ter tempo para usar, e poder usá-lo da melhor forma possível. Ao focar na qualidade do tempo corre-se o risco de perder de vista o essencial, que é ter tempo para gastar. Se o tempo é por natureza algo que dura, terá que ter uma certa quantidade para que se possam produzir diferenças qualitativas no seu aproveitamento, e como qualquer idiota deduzirá, é melhor aproveitar maiores momentos de tempo de qualidade do que momentos menores. Importa é não perder de vista a reversibilidade do dinheiro em tempo, sem o que o trabalho se transforma numa fadiga vã, perversa e sem sentido. É da acumulação eterna que ficamos prisioneiros, se não transformamos o dinheiro em tempo.

O dinheiro não passa de um meio para outras coisas. Ninguém no seu perfeito juízo valoriza o dinheiro em si. O tempo (e o espaço, diria Kant) também é um meio, mas não de modo apenas instrumental. O tempo não serve para atingir alguma outra coisa, é nele, no próprio tempo, que tudo acontece.

Proponho então que se experimente pensar ao contrário: dinheiro é tempo. A finalidade do trabalho não é a produção de dinheiro, mas de tempo. Se não resultar mais cedo ou mais tarde na produção de tempo livre, o trabalho perde o sentido, e a vida toma um de dois caminhos: ou se trabalha para sobreviver e se vive para trabalhar, ou existe-se ao modo dessa espécie particularmente degenerada que é o homo consumericus.

Eu pessoalmente escrevi este texto precisamente porque o trabalho me retira o tempo que quero e o dinheiro não o substituir, mas a deteção de um problema é um passo e a sua solução é outro.

Habemus livrum

Está disponível para venda o livro que recolhe uma seleção de textos originais publicados neste blog, com alguns acrescentos, emendas, exclusões e repescagens.

Capa: concebida por David Gama (davidgamadesign.com), em cartolina castanha rugosa
Dimensões: 13×20
Papel: munken 90gr
Nº páginas: 80
P.V.P.: 8€ em mão, 9€ por correio

Pagamento: Transferência bancária
Envio: CTT (envelope almofadado)

E como fazemos? Bom, os pedidos podem ser efetuados para pedrolavourasantos@gmail.com, após o que enviarei o IBAN para que seja feita a transferência, e o livro é enviado no prazo máximo de 2 dias.

Introdução do livro “Mil Milhões de Centopeias” (excertos)

Há alguns anos comecei a escrever um blog intitulado Mil Milhões de Centopeias. Na altura pensava que através da multiplicidade de textos poderia compor um retrato relativamente fiel da minha forma de pensar, e esperava que a escrita ajudasse a clarificar e articular algumas ideias que pairavam no meu espírito. Também tinha como objetivos praticar a escrita e tentar habituar-me a ser lido por outras pessoas. Acabei por concluir que o pensamento é dinâmico e talvez indeterminável: se conseguir caraterizar o seu estado num dado momento, já entretanto se transformou noutra coisa. A partir daí a escrita no blog tornou-se mais lúdica, embora pontualmente atravessada por questões existenciais.

O sentido do título tem a ver com as incontáveis coisas, pessoas ou formas de condicionamento social que tendem a obstruir a manifestação da individualidade e o pensamento autêntico. São milhões porque na sua quantidade e força, de pequeninas que são, chegam a ocultar a existência de outros seres e formas de existir, e são centopeias porque provocam, pelo menos a mim, uma reação de repulsa. Por outro lado é apenas uma frase sem sentido cuja sonoridade que me agrada. Este livro é uma seleção dos melhores textos que aí foram publicados entre 2011 e 2015, com alguns remendos, emendas e acrescentos. Consiste em pensamentos, sátiras e fantasias que fui tendo ao longo deste tempo, misturando textos que foram escritos a pensar num eventual público com outros mais introspetivos.

A decisão de publicar esta miscelânea em livro veio de querer encerrar uma fase, reunindo textos que já se vão tornando antigos, e dar alguma ordem àquilo que considero ser um apanhado da minha juventude tardia. Reunir textos já escritos pareceu-me uma maneira simples de terminar um livro e dá-lo a conhecer a um conjunto de amigos. No entanto, (…) O que inicialmente era para ser um objeto artesanal produzido no espírito do it yourself, por efeito da pressão de algumas pessoas acabou por tornar-se num objeto-livro mais formal, com direito a impressão profissional, ISBN e uma capa gentilmente composta por um designer amigo. Todo esse profissionalismo acabou por tornar mais trabalhoso o processo de terminar este empreendimento, mas, com alguma teimosia, aqui está.

Publicar este livro tem menos a ver com achar que o seu conteúdo tem uma qualidade que o justifique, e mais com tentar forçar-me a deixar de ser um daqueles gajos que escreve umas coisas que não mostra a ninguém. Sem falsa modéstia, considero-me igual a tantos outros que gostam de escrever mas não acham, ou duvidam, que o que fazem seja suficientemente bom para ser publicado. Embora ache que fora do meu círculo de meus amigos e conhecidos o interesse destes escritos seja reduzido, decidi-me a combater as minhas inseguranças e aceder ao desejo que ocasionalmente sinto de incomodar os outros com as minhas observações. Faço-o também como um passo que me é necessário para possivelmente no futuro me arriscar num projeto mais ambicioso.

(…)

Isto contém, portanto, desde parvoíces escritas nos meus tempos de estudante de filosofia até textos mais recentes. Bons ou maus como sejam, com as suas qualidades e defeitos, são o que me apeteceu escrever, ou desse conjunto de coisas as que me pareceram mais aptas a mostrar a outras pessoas. O mundo já está cheio de letras, textos e escritores. Está sobretudo cheio de gente pretensa de ter razão, e que chateia os outros com as suas opiniões. Este livro também é curto porque sempre procurei evitar escrever palha. Procurei a sucintez, por vezes tendo sido reencaminhado ao silêncio. Olho para estas páginas e acho-as poucas e pouco significantes. Mas para mim têm o valor de me lembrarem de todas as coisas que gostava de descrever e não consigo, todas as coisas que gostava de escrever e ainda não o fiz, os escritos abandonados, inacabados, incompletos ou disformes… No fundo, todas as minhas ideias, o meu ser e o que acho importante, e o que podia ter feito de melhor.

O que é que isto interessa aos outros é algo que não sei, mas espero que o feedback que venha a receber desta iniciativa sirva como um incentivo ou um corretivo. Apelo, portanto, ao patrocínio deste jovem semiletrado (ou serei já um semijovem letrado?), sob a forma de donativos em troca deste opúsculo, que calculo ter o valor aproximado de um hambúrguer acompanhado por uma cerveja e um cafezinho. Também estou disponível para conversar e beber qualquer coisa.

21 de agosto de 2016.