O poder (retrato parcial)

O poder
o gozo de espezinhar
mesquinho, comum, grosseiro
de suplantar
estar acima
A posse
A vil, insana coroa
Vã glória de mandar
A propriedade ou
o roubo da alegria vã e inconsequente
da insanidade virginal
a violação do túmulo índio
a tirania
o prazer de apertar o jugo
Não mais que o poder
nu, cru e vazio
a glória da nulidade.

(a besta vai às compras)

sem brinde
sem cupão
despromovida

sem classe
sem consideração
desconhecida

mas não ignorada, não
como uma borbulha que crepita
uma nota infeliz na secção de sopros
a breve momentânea indigestão,
um arroto
algo que passa, nem acontece
de que se não fala

um pre que se receia sentimento
uma fatalidade de antanho
a tragédia anunciada que podia ser evitada
para glória da nossa associação comercial e filantrópica
realçando a nossa competência, integridade e empreensão,

lá vai ela, a besta,
com um sorriso nos lábios.

As minhas calças

A pouco e pouco o meu par de calças

funde-se com a poeira

com a matéria de que é feita a vida

com o ar que respiro

a paisagem brilhante ao Sol

o verde esvanecente das folhas de Outono

Com os passos ansiosos, desajustados

À procura do caminho

Tiro-as, ponho-as

exponho, tapo, as pernas e o sexo

Envelhecem só um pouco mais rápido que eu

As minhas calças.

Casa do Bispo

Foi num dia como qualquer outro um mero dia
Ensaiávamos a nossas músicas ou pseudo-músicas junto ao ISCA perto da Escola Agrária em São Martinho do Bispo
a música saía rude como soía
quando passou um tipo com um chapéu e um clarinete e pediu para tocarmos ska
E tocámos até o vinho acabar e depois fomos para a Casa do Bispo.

Vimos ao fundo uma festa e desejámos entrar
Vieram moças com saias curtas e grinaldas de flores havaianas convidar-nos
a festa eram 5 euros
acabámos por não pagar nada
o tipo do chapéu trouxe ganza e tocámos até de manhã
e com o manifesto apoio popular
sonhámos um dia a ser a melhor banda do Baixo Mondego
ou pelo menos da Rua dos Combatentes.

mulheres/bibliotecas

As mulheres são mais bonitas nas bibliotecas
quando as encontramos no meio da busca do saber
por vezes árdua

No cruzamento de corredor
vistas por entre os livros
ou curvadas sobre a prateleira

Normalmente em trajes aprumados
Sempre com uma expressão inquisitiva
ainda que quiçá demasiado solene

(é mera aparência)

E as bibliotecárias
costuma haver sempre uma que é excepcionalmente bonita
e sorridente
e alta
e um pouco mais velha

Perdi a minha geração

Perdi a minha geração nas arcadas dos cafés
nos backstages dos concertos
na fila para a casa de banho
na marcha do protesto estudantil

Perdi a minha geração
a última dos ideais?
a das moças mais bonitas y simpáticas
crescemos de mãos dadas

Perdi a minha geração
perdi o comboio
perdi a senha na fila da segurança social
perdi a oportunidade de assinar aquele contrato