Realizar

«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo, a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!

(Alexandre O’Neill)

Luis de Camões, «Mudam-se os tempos…»

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

Eu te saúdo, velho oceano!

Velho oceano, à tua primeira aparição, um sopro prolongado de tristeza, que acreditaríamos ser o murmúrio da tua brisa suave, passa, deixando traços indeléveis sobre a alma profundamente abalada, e tu recordas à memória dos teus amantes, sem que disso sempre nos demos conta, os rudes começos do homem, em que travava conhecimento com a dor, que jamais o deixa. Eu te saúdo, velho oceano!

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Velho oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra o rosto sisudo da geometria, lembra-me somente muito os pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali pela pequenez, e aos dos pássaros noturnos pela perfeição circular do contorno. Porém, o homem julgou-se belo em todos os séculos. Eu suponho antes que o homem não acreditou na sua beleza senão por amor próprio; mas, que não é realmente belo e que duvida, pois porque olha ele a figura do seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho oceano!

Velho oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não te alteras de modo essencial, e se as tuas vagas estão nalguma parte em fúria, mais longe, nalguma outra zona, elas estão na calma mais completa. Tu não és como o homem, que pára na rua para ver dois buldogues a agarrarem-se pelo pescoço, mas que não pára quando um enterro passa; que está esta manhã acessível e noutra de mau humor; que hoje ri e amanhã chora. Eu te saúdo, velho oceano!

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Velho oceano, não haveria nada de impossível naquilo que tu guardas no teu seio de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe deste a baleia. Tu não deixas facilmente adivinhar aos olhos ávidos de ciências naturais os mil segredos da tua organização íntima: tu és modesto. O homem vangloria-se continuamente, e por ninharias. Eu te saúdo, velho oceano! Continuar a ler

«Nunc est bibendum…»

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Bebamos! Porque aguardamos as lucernas? Já só há
um palmo de dia. Retira, célere, dos pregos, as grandes taças.
O vinho que dissipa aflições, doou-o aos homens o filho
de Zeus e Sémele. Deita-o nas taças, uma parte para duas,
cheias até à borda, e que um cálice
empurre o outro.

(frg. 346 Lobel-Page)

 

Alceu (poeta grego, sécs. VII/VI a.C.). Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

Um jardim + A noiva

Há um murmúrio de águas frescas, através
dos ramos das macieiras, as rosas ensombram
todo o solo, e das folhas trémulas
escorre o sonho.

(fr. 2, vv. 5-8 Lobel-Page)

 

Tal uma doce maçã rubra, que brilha no alto dos ramos,
mesmo no cimo de tudo, esquecida dos que andavam na colheita,
– esquecida não, é que não conseguiram atingi-la.

(frg. 105 Lobel-Page)

 

Safo (poetisa grega, sécs. VII/VI a.C.). Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

Primavera

Na Primavera florescem os marmeleiros
e as romãzeiras, regadas
pelas águas dos rios,
lá onde fica das Virgens o jardim imaculado,
e os gomos das videiras crescem sob os rebentos
umbrosos dos pântanos; mas a mim o Amor
não me dá estação alguma de descanso:
como o trácio Bóreas, deflagrando
com o trovão, soprando do lado de Cípria,
com loucura devastadora,
tenebroso e sem peias,
sacode de alto a baixo com força
o nosso coração.

(frag. 6 Diehl)

 

Íbico (poeta grego do séc. VI a.C., que por acaso parece que era panilas). Tradução da MHRP (props).

Jorge Luis Borges: “Arte poética”

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como um rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

tradução de Ruy Belo, in JL Borges, “Poemas escolhidos” (Dom Quixote, 1971)