O princípio da propulsão

Uma regra de ação básica: toda a ação que não for precedida de um pensamento está correta. Passo a explicar. Uma ação que não é precedida de um pensamento é diferente de uma ação baseada na primeira coisa que nos passa pela cabeça. Essa é uma ação imprudente, a que habitualmente se chama “agir sem pensar”. Refiro-me a algo diferente. Quando temos dúvidas e não sabemos o que fazer, há um impulso, a que chamo o “princípio da propulsão”, que representa a melhor opção, a qual o pensamento, por si, nem sempre consegue encontrar.

Alguns exemplos. Acabei de acordar e não sei se me apetece levantar. Estou a xonar. Pergunto-me se ainda preciso de xonar mais um bocadinho ou se já chega. A dada altura penso se calhar já chega e é o momento de me levantar. Ora, o modo de determinar o momento ideal de levantar, quando não há nenhuma força exterior que nos obrigue, é deixar que o corpo decida por si e se levante. Se não pensar, a dada altura as minhas pernas, em representação do corpo, tratam de realizar um movimento propulsivo, escolhendo o momento adequado para um acto que é do seu interesse.

Do mesmo modo, quando encontro um grupo de pessoas conhecidas não penso a quais é que me vou dirigir e a quais vou falar. Naturalmente as minhas pernas dirigem-se às pessoas com quem, no momento, tenho cenas a partilhar, os meus olhos procuram o que me interessa e mostram o meu estado de humor, e os meus braços acenam na direção do que desejo.  Perante pessoas desconhecidas, de igual modo, o meu corpo propulsiona-me em direção ao que é melhor para mim, ou mais basicamente ao que me atrai, e ainda que a metodologia se baseie na tentativa e no erro, é sem dúvida mais eficaz do que refletir sobre quais as pessoas a que me devo dirigir, a quais devo falar, etc.

Outro exemplo. Estou num bar ou restaurante e começo a pensar nas diversas coisas que posso pedir, e começo a ficar com dúvidas sobre o que quero. Porém, para saber o que verdadeiramente me apetece, é inútil pensar, devo antes procurar o que realmente me apetece, antes de toda a reflexão. No entanto, deve notar-se que se o garçon demorar muito tempo a atender-me se torna inevitável questionar-me se não há alguma opção mais inteligente, do género, se calhar um whisky caía-me melhor do que uma cerveja. Aí já não há volta a dar-lhe, uma vez que a vontade foi invadida pelo pensamento, torna-se necessário tomar uma decisão baseada em razões, por mais disparatadas que possam ser. Se teimar em pedir uma cerveja só porque era a minha primeira ideia, corro o risco de ao saboreá-la pensar “devia ter pedido um whisky”. Por esse motivo, se tiver planeado ir a algum sítio a uma determinada hora, devo evitar pensar naquilo que vou pedir quando lá chegar, pois corro o risco de me convencer que quero algo que depois não me apetece. Se decidir com base no instante, e for atendido com razoável rapidez, acerto sempre na coisa que quero.

Assim, de um modo geral, o corpo indica mais depressa a vontade do que a razão, uma vez que a vontade está a um nível anterior à racionalidade. Sempre que possível, para saber o que fazer, devo perguntar ao corpo, que me dirá se tenho sede, fome, se preciso de batatas fritas, manga ou vinho do Porto, se estou a precisar de dormir ou dar uma corrida, etc. O papel da razão é o de supervisionar a atividade instintiva: obviamente que os instintos, embora sejam de uma exatidão admirável, são inconscientes da finalidade a que se dirigem – daí a sua alegria e prontidão. Por isso convém que levem uma vistoria de vez em quando, para verificar se estão a funcionar corretamente. Outra função da razão é a de investigar as razões insuspeitas, e, admirando-se ao ver-se do avesso, aprender com o seu outro.

Onde é aplicável, o instinto leva a melhor sobre a razão, e sempre que possível, deve-se evitar pensar sobre aquilo que se quer fazer. Já o que se deve fazer é outra história…

Descoberta de manuscrito de Pseudo-Wittgenstein

Foi descoberto recentemente um manuscrito que chegou a pensar-se que fosse um original inédito de Ludwig Wittgenstein. O documento em causa apresenta uma estrutura similar à do célebre Tractatus Logico-Philosophicus, porém, defendendo teses diametralmente opostas. Tal poderia parecer indicar que se trataria de um genuíno Wittgenstein (especulou-se em falar no “Wittgenstein antepenúltimo”), porém, a análise morfo-sintática, e sobretudo o facto de o documento estar escrito em português, língua de Ludwig não dominava, afastaram as dúvidas sobre a apocrificidade do mesmo.

Permanece no entanto o interesse da comunidade lógico-filosófico-científica no Pseudo-Wittgenstein, continuando as escavações no local onde se encontrou a folha manuscrita e incompleta cujo conteúdo a seguir se transcreve, na esperança de encontrar a continuação de tão singular tratado.

TRACTATUS LOGICO-MYSANTHROPICUS

1. O mundo é tudo o que anda por aí.

1.1 O mundo é o conjunto das coisas, e não dos factos.

1.1.1 O conjunto dos factos é reduzido e obscurecido pelo amontoado de coisas.

1.1.2 As coisas amontoadas, sobretudo as inúteis, são o mundo.

1.2 A totalidade das coisas determina, pois, o que anda por aí e o que não anda.

1.2.1 Uma coisa pode andar por aí e não andar e tudo o resto permanecer idêntico.

2. O mundo decompõe-se continuamente.

2.1 O que existe de facto são coisas em decomposição no mundo.

2.1.1 O estado de coisas é uma relação entre a composição e a decomposição.

2.1.2 Em lógica nada é acidental: se uma coisa útil é obscurecida pelo amontoado das coisas inúteis, é porque a não decomposição das coisas úteis é impossível.

2.1.2.1 Pareceria igualmente um acidente se uma coisa inútil fosse obscurecida por algo útil. Mas, se uma coisa pode existir num amontoado, então a possibilidade de constituir um monte de coisas inúteis tem que residir nela.

(O que é lógico não é meramente o possível. O que existe existe, não sendo portanto possível, e no entanto é lógico. Assim como podemos pensar em coisas que não existem e que podem vir a existir, não podemos pensar nalguma coisa que possa vir a existir se ela já existe, e assim uma coisa é possível desde que não exista, Q.E.D.)

Ontologia flipada

I

Não há nada melhor do que o bom, nem mesmo o muito bom. O muito bom é já sinal de exagero: é talvez demasiado… É caso para desconfiar.

E mesmo que o muito bom fosse melhor que o bom: seria necessário? O bom já basta. Embora o melhor que se consegue fazer nem sempre seja o suficiente.

O bom não precisa de superlativo.

II

O real é o melhor possível, e o melhor possível é o ideal. Um ideal impossível não é ideal, é tão triste como o pior da realidade.

III

O mau pode ser bom, se for uma melhoria. Quem vem do muito mau, não se sentirá feliz por chegar ao mau? E, enquanto melhora, sentir-se-à bem, e é o melhor possível, Q.E.D..

Elogio do pastor

O pastor ama a sua delicada donzela sem que nenhum filósofo se venha meter com ele.

O pastor não terá questões morais entre o amor e a luxúria: ele viverá a verdadeira cena. A sua moral é a ampla pradaria, o convívio com os montes, flores, árvores, animais.

Não se devem fazer poemas sobre os pastores como fez  Fernando Pessoa, nem de forma alguma chamar a atenção para a sua felicidade.

É deixá-lo lá estar. Assim que formos lá mostrar como têm tudo, eles provarão a falta.

O pastor é feliz porque é pagão. O pagão vive as formas exaltadas da natureza sem por isso sofrer de hybris, de impiedade, de loucura.

 

(Do meu caderno de apontamentos de Filosofia Antiga, circa 2003. Adulteração das palavras do notório sábio, professor, filósofo e filólogo Carlos H. C. Silva)