Sobre o Nobel da literatura: pode a canção ser considerada um género literário?

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A propósito da recente polémica acerca da atribuição do prémio Nobel da literatura a Bob Dylan, a questão central parece ser: pode a canção ser considerada um género literário?

Qualquer definição (de literatura ou de qualquer outra coisa) é problemática e passível de discussão argumentativa. Mas, tomado de forma abrangente, o campo literário não pode deixar de incluir a canção, que por ser cantada não deixa de ser escrita nem de utilizar as palavras como meio expressivo. Por “literatura”, o meu dicionário indica a “arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa e verso”, enquanto a Wikipédia portuguesa fala da “arte de compor e expor escritos artísticos, em prosa ou em verso”, prosseguindo com considerações acerca da ligação da literatura à estética, que permite distinguir o texto literário do texto científico. Ambas as definições dão mais do que espaço para incluir a canção, que é uma forma artística composta, escrita e exposta em prosa ou em verso, e para além disso, cantada. A junção entre a música e a palavra existe desde sempre, e é redutor restringir à categoria estritamente musical todas as obras musicais. Se uma canção (ou outro género musical) é composta por música e letra, deve ser apreciada esteticamente a nível musical e literário, ou mais exatamente, como uma forma artística mista.

A Academia Sueca indica como critério para a atribuição do Nobel a criação “no campo da literatura do trabalho mais excecional com um pendor idealista” (traduzindo o  sueco den som inom litteraturen har producerat det mest framstående verket i en idealisk riktning por via do inglês, podendo traduzir-se a parte final também por “com uma direção ideal”). O mérito literário aparece aqui ligado ao idealismo,  o que pode levantar muitas outras questões, tais como definir idealismo, quais os critérios para considerar se um escritor é idealista, se Bob Dylan é ou foi idealista… O que queria fazer notar é que esta ligação do mérito literário ao idealismo levou, pontualmente, a Academia a atribuir o Nobel da literatura a autores que não se enquadram na perceção tradicional do que é a literatura.

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Podia citar mais exemplos, mas restrinjo-me a três razoavelmente bem conhecidos: a atribuição do prémio a filósofos como Henri Bergson (1927) e Bertrand Russell (1950), e a um político, Winston Churchill (1953). A citação da atribuição do prémio a Bergson indica “em reconhecimento das suas ideias ricas e vitalizadoras e da capacidade brilhante com que foram apresentadas”. Já Russell foi distinguido “em reconhecimento da sua escrita variada e significativa em que promove ideais humanitários e a liberdade de pensamento”, enquanto Churchill foi distinguido “pelo seu domínio da descrição histórica e biográfica bem como pela sua brilhante oratória na defesa dos valores humanos exaltados”.

Em que medida é que a Filosofia pode ser considerada uma forma literária, enquanto “arte de compor ou escrever trabalhos artísticos”? Não será a Filosofia (e em particular um autor dedicado à lógica e à matemática como é o caso de Russell) mais uma atividade científica do que artística? Verificamos assim nas escolhas da Academia sueca uma preocupação em, de tempos a tempos, baralhar as cartas, questionar a definição de literatura, e atribuir o prémio a autores que, em diversas áreas e de diversas formas, utilizaram a linguagem de uma forma inovadora e com reconhecido mérito humanístico. Neste contexto, a atribuição do Nobel a Dylan parece uma consequência lógica.

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Se de facto é raro que na música os textos adquiram relevância literária, é porque habitualmente a letra é colocada em segundo plano perante a música. Não é o caso de Dylan, em que acontece precisamente o inverso. Muitas pessoas indicam que lhes é indiferente a letra de uma canção, desde que gostem da música. Não partilho dessa opinião. Se uma canção tem uma letra, esta assume um papel na sua expressividade que não pode ser menosprezado. Mesmo quando o ouvinte ignora o conteúdo da letra, esta influencia a emoção e a expressividade do cantor, o que acaba por ter um impacto no ouvinte. Para gostar de Bob Dylan é preciso ter um domínio médio/avançado da língua inglesa, ou então apreciar as nuances típicas do cantor que é simultaneamente um contador de estórias, um cantor/escritor de canções. E diria mesmo que, provavelmente, é impossível gostar de Bob Dylan sem gostar de ler. Assim, do facto da canção raramente atingir valor literário, não se segue que não possa ser literatura. Tal como muita “literatura” não tem qualidade literária, isto é, poética – de criação de sentido, desvelamento da realidade, e entendimento do belo e do horrível através do uso da palavra. E é isso que acho que o Nobel 2016 faz exemplarmente.

bob_dylan_june_23_1978Para além disso, é sabido como desde tempos remotos a poesia e o canto estão intimamente ligados. Reagindo à atribuição do prémio, Salman Rushdie referiu o modo exemplar como Dylan se inscreve na tradição de bardos que tem raízes na figura lendária de Orfeu, passando por Safo, Homero, e pelos trovadores medievais. Se a poesia trovadoresca era cantada, e o Cancioneiro Geral, mais tardio,  já não o é, permanece o nome de “canção” para formas poéticas dotadas de um ritmo e de uma musicalidade. Poetas como Camões, Bocage ou Eugénio de Andrade escreveram “canções”, isto é, poemas com especial atenção à sonoridade e destinados a ser cantados ou lidos em voz alta.

Fora tudo isto, é indubitável que a atribuição deste prémio é uma provocação corajosa que provoca o debate sobre o que é a literatura, possivelmente também com a intenção de chamar a atenção de um público mais alargado para os prémios Nobel. A atribuição do prémio a Bob Dylan diminui as barreiras entre arte erudita e arte popular, e poderá levar a um aumento do interesse por outros vencedores do prémio, que nos anos recentes tem estado tão afastados do conhecimento do grande público. E isso parece-me bom para a literatura. Citando mais uma vez Salman Rushdie, “as fronteiras da literatura continuam a alargar-se, e é  entusiasmante que o prémio Nobel o reconheça”. Já em 2013 o crítico musical Bill Wyman reclamava o prémio que agora chegou, dizendo que “se a academia não reconhecer Bob Dylan – um bardo que  personificou a convulsão social mais significativa da segunda metade do século anterior – irá desperdiçar a sua melhor oportunidade de honrar um poeta pop”.

Um dos argumentos mais utilizados para criticar a escolha de Dylan é a falácia da “pista escorregadia”: se Dylan pode ser Nobel da literatura, porque não Leonard Cohen? Ou Tom Waits? Ou, já agora, Rui Reininho ou Tony Carreira. Mas a verdade é que, se Cohen andou lá perto (sendo um poeta premiado antes mesmo de começar a fazer canções), ninguém conseguiu de forma tão exemplar, no séc. XX, unir a arte popular da canção à poesia. E fê-lo de uma forma mais admirável por ter sido popular e ter tido uma carreira comercialmente viável indo sempre, numa direção ideal, contra as expetativas, as convenções e o populismo.

MusiCares Person Of The Year Tribute To Bob Dylan - Show

“Comunidade”, de Luiz Pacheco (1964)

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Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente silenciosamente duma igual vivificante seiva.

É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados: uma pernita de criança, um braço nu sozinho, um punho fechado (um adeus?… uma ameaça?…), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.

Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo, mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

Agora, sentado aqui na cama e escrevendo inclinado para a lâmpada do pequeno candeeiro em tulipa azul de vidro fosco, sinto nos rins o rosto da Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, a sua mão, muito branca e esguia, pálida, quase morta, avançou numa aflição de afogado e veio agarrar-se a mim, junto à sebenta sem linhas onde a esferográfica de tinta vermelha deixa riscos e traços, bolinhas abauladas dos OOO e outras argolas mais do alfabeto, um rasto leve de sangue a fingir, sangue inventado, transposto em palavras e sinais, quieto ali à vista, seco para sempre, moldado, concentrado numa raiva, sujo de palavras, desconforme, sabe-se lá quando mentiroso ou verdadeiro, mas já descansando do seu apressado infatigável zeloso viajar pelo corpo. Sem a dignidade do sangue quente que gira pelas veias e artérias, ora escuro ora mais oxigenado, mas com a gravidade do que esguicha, raivoso, ou escorre, devagar, delicado, das feridas, sangue que vem lá de dentro do corpo com uma força definida, uma coisa a dizer, um sintoma a revelar. Uma voz, se preferem.

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A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas caprichosas, perigos desconhecidos. É uma imagem literária, esta, da cama-jangada; a literatura, a quem muito, sofregamente lê, dá isto: comparações para tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa de todos os dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver; antes a figurar-se. Permite, talvez, uma certa coerência (interior). Não é importante, afinal – mas que será importante, afinal?

Vamos na jangada. Já estamos tão habituados que nem reparamos (é mesmo assim!). Antes de nascer o bebé, o Paulo Eduardo, era pior: havia sempre o receio por esse desconhecido, cuja cara não víamos, escondida como estava na barrica barriga da mãe, e não sabíamos quem era e como era e o que queria. Talvez um inimigo. Talvez um diferente de nós. Talvez um descontente. Um intruso. Ele só dava sinais (aliás, incompreensíveis, para quem não tiver grande prática) através dumas palpitações, remexidelas, cambalhotas, pontapés no escuro (longa noite primeira, o denso mar original), cabeçadas sob a pele de tambor esticada do odre materno. Mas apareceu e já estamos mais sossegados. Não é um estranho nem um inimigo. É um bebé, apenas um bebé. Um igual a tantos, ao que já fomos, e chora e borra e mija e mama como todos os bebés. Mama como quem está a puxar a vida do corpo da mãe, vida quente e docinha, tão fácil! tão gulosa!, para dentro dele. Caga e mija como quem ri do mundo, do muito que nele há para a gente rir, misérias e tristezas, aleluias e horas de prazer, que tudo vale o mesmo e tudo é o mesmo fumo e tem o mesmo fim. Chora como quem já sabe isso. Continuar a ler

O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (por Luiz Pacheco)

Capa da edição original, 1970. Texto escrito em 1961.

Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): “Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur (“O Enjeitadinho”? “O Corcundinha”?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: “Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada”. Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar… Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.

Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: “Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!”. Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

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