Lao Tsé, Tao te King XI

Trinta raios convergem para o meio
mas é o vazio do centro
que faz avançar o carro.

Molda-se a argila para fazer vasos,
mas é do vazio interno
que depende o seu uso.

Uma casa é fendida por portas e janelas,
é ainda o vazio
que a torna habitável.

O Ser dá possibilidades,
mas é pelo não ser que as utilizamos.

O conceito de ideologia em Paul Ricouer

I

No capítulo “Ciência e ideologia” de Do texto à acção, Paul Ricoeur analisa o conceito de ideologia, relacionando ideologia com verdade: a questão é saber qual o valor epistemológico do saber ideológico, isto é, se é possível existir um conhecimento objetivo quando há um compromisso com a prática nas condições sociais em que o sujeito se insere, e por outro lado, se é possível um ponto de vista sobre a acção que esteja liberto da “condição ideológica do conhecimento comprometido com a praxis[1].

Por aqui já se vê que Ricoeur rejeita a concepção negativa da ideologia, que vê nesta “uma representação falsa cuja função é dissimular a pertença dos indivíduos a um grupo, a uma classe, a uma tradição, que estes têm interesse em não reconhecer”. Afasta-se também de um modo particular da concepção negativa que é o marxismo, que entende a ideologia como um sistema de representações do mundo através do qual a classe dominante legitima a sua posição privilegiada face às classes dominadas. Para Ricoeur a dominação é apenas uma das dimensões da função mais vasta de integração social, que não se pode reduzir nem definir essencialmente pelas relações de dominação.

Ricouer começa por ligar o fenómeno ideológico à “necessidade, para um grupo social, de se dar uma imagem de si próprio, de se representar”. Esta necessidade de autorrepresentação estabelece uma relação com o acto fundador da comunidade ou regime: pense-se na frequente invocação pelos americanos da sua Declaração dos Direitos (Bill of Rights), na invocação dos valores da Revolução Francesa ou dos capitães de Abril… Uma comunidade histórica mantém uma relação com o seu evento fundador, que através da invocação, celebração ou repetição ritual propaga a sua energia até ao momento presente, ultrapassando o seu momento de efervescência inicial – pode-se também pensar, para ilustrar esta ideia, num grupo de amigos que invoque uma aventura que fortaleceu a sua amizade, ou num casal que recorda o momento em que se apaixonaram. A recordação de um evento fundador traz o consenso social e uma sensação de coesão e pertença, mas traz também o convencionalismo nos valores. A este nível, a ideologia é justificadora do status quo.

A segunda caraterística assinalada à ideologia é a de motivação social: a ideologia “é para a praxis social o que um motivo é para um projecto individual: (…) ao mesmo tempo aquilo que justifica e aquilo que arrasta”. A ideologia tem pois um dinamismo; para além de justificar a adesão a um sistema de valores, ela lança esse sistema na acção, orientando-a. Perante a acção coletiva de grupos sociais, empresas, instituições, etc., a ideologia fornece a crença na justeza das acções empreendidas.

A terceira caraterística é a de simplificação e esquematização, pela qual a ideologia dá uma visão de conjunto não só do grupo que a sustenta mas também da história e do mundo circundante. Esta visão esquematizada traz necessariamente um empobrecimento do rigor do pensamento, por privilegiar a eficácia na transmissão de ideias. Para Jacques Ellul, o fenómeno ideológico é “a mutação de um sistema de pensamento em sistema de crença”. Assim, o valor epistemológico da ideologia está ao nível da opinião ou doxa – o nível do provável, do raciocínio argumentativo que se impõe não demonstrativamente, mas através da persuasão. A codificação da visão do mundo fornecida pela ideologia é necessariamente uma simplificação, que não pode ultrapassar o nível cultural médio do grupo. Desde o momento fundador de uma comunidade surge um vocabulário específico e uma simplificação conceptual que tendem à estereotipação da linguagem.

A quarta caraterística da ideologia é a implicação do sujeito dentro dos seus esquemas; estes não são algo que temos diante de nós e que analisamos friamente, mas sim algo como o lugar a partir do qual habitamos e pensamos, uma perspetiva na qual estamos implicados à partida e que nos permite a inteligibilidade do mundo. Podemos não pensar na ideologia como um tema, mas antes pensamos sempre a partir dela. Assim, a ideologia desempenha também um papel de mediação entre o sujeito individual e a realidade socialmente partilhada, sendo uma condição da possibilidade de acesso a esta.

Por último, o quinto aspeto detetado na análise do fenómeno ideológico é a sua temporalidade, que se traduz numa tendência para a inércia, para a receção do novo num quadro de inteligibilidade previamente estabelecido, estruturando a experiência social em camadas de sedimentos. A ideologia tende a permanecer a mesma enquanto os factos e as situações mudam. Neste quadro, o que não é assimilável ao sistema de ideias vigente é rejeitado, pois “todo o grupo apresenta traços de orto-doxia, de intolerência à marginalidade”.

[…]


[1] Todas as citações dizem respeito ao capítulo “Ciência e ideologia”, in P. Ricoeur (1991). Do texto à acção (pp. 300-327). Porto: Rés Editora.

 

PARA LER ESTE ARTIGO NA ÍNTEGRA:
https://www.academia.edu/5897543/O_conceito_de_ideologia_em_Paul_Ricoeur

Ser ou não ser: David Hume

“A intensa visão dessas múltiplas contradições e imperfeições na razão humana influenciou-me de tal modo, e aqueceu o meu cérebro, que estou preparado para rejeitar toda a crença e raciocínio, e não posso considerar nenhuma opinião como sendo mais mais provável ou plausível do que qualquer outra. Onde estou, ou o que sou? De que causas eu derivo a minha existência, e a que condição retornarei? O favor de quem devo cortejar, ou a cólera de quem devo temer? Que seres me cercam? E sobre quem tenho alguma influência, ou quem tem alguma influência sobre mim? Estou perplexo com todas estas questões, e começo a me imaginar na condição mais deplorável que se pode imaginar, cercado pela mais profunda escuridão e privado ao extremo do uso de cada membro e faculdade.

Acontece por muita sorte que, como a razão é incapaz de dispersar essas nuvens, a própria natureza basta para esse propósito e me cura desse delírio e melancolia filosófica, relaxando essa disposição de espírito ou com alguma distracção, e a vívida impressão dos meus sentidos, que obliteram todas essas quimeras. Eu janto, eu jogo uma partida de gamão, eu converso e divirto-me com os meus amigos; e quando, após três ou quatro horas de diversão, retorno a essas especulações, elas parecem tão frias, e forçadas, e ridículas, que não consigo ter coragem para entrar um pouco mais nelas.”

David HumeTratado da Natureza Humana (1740), livro I, parte IV, secção 7.