“Stereo”, by David Cronenberg (1969)

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Now that we have some insight into the concept of experiential space, we may consider interaction among the experiential space continua of a highly unique group of individuals.

In general, a study of the varying dimensions of human experience in the context of man in his society is known as human social cybernetics. In our experiment, eight Category-A subjects underwent pattern brain surgery whose program was developed within the academy’s organic computer dialectic system. The object of surgery was to extend, by a process called biochemical induction, the natural, electro-chemical network of the human brain. This extension would provide each subject with telepathic capabilites. A telepathist is one who can communicate with other minds by means which do not involve perception by the senses. Thus, telepathy is a form of extra-sensory perception or ESP.

Our subjects were to be kept in isolation at the institute for three months, where they were to prepare for their first meeting as a group. This meeting was to take place at the academy sanitorium in the Ontario north woods.

Telepathic dependency is an extreme form of psychic addiction. It is essentially an electro-chemical addiction. The dependent, surrending the autonomy of his own nervous system to that of the object of his dependency, and altering his patterns of electro-chemical discharge to mimic those of his object. When the object of dependency is telepathically unavailable for long periods of time the new nervous patterns find themselves suddenly without a constant source of electro-morphological reinforcement… and, severe psychic disorientation begins to manifest itself in the dependent. At its most intense level a frustrated dependency can result in the irreversible destruction of critical brain tissue. In as much as the establishment of a partial telepathic dependency of the subject upon his researcher is an unavoidable part of the parapsychological experimental gestalt, the means to maintain this dependency at a controllable level must be considered an organic element forming that experimental gestalt.

During the institute phase of the induced telepathy series… our subject, possessed of a statistically excessive, dependency susceptibility quotient, wounded himself in the forehead, with a hand drill. The wound, a hole about one-half an inch in diameter, completely penetrated the subject’s skull and seemed to afford him the relief of imagined cranial pressures. Temporary euphoria, and electro-chemical dissociation, which he sought.

It will perhaps clarify these matters if we consider the specific configuration of the Category-A subject. Category-A is a classification which finds its meaning within the scientific metaphysics of the aphrodisiast and theorist Luther Stringfellow. It is not what is usually considered an objective classification. Based for example, upon physical or psychological characteristics. Category-A, is rather a certain field reaction of the researcher to an intensive period of personal interaction with each of his potential subjects. There is also, therefore, the element of an aesthetics of human form in the Category-A system of subject classification.

Dr. Stringfellow made his name as an exponent of the existential organic approach to the sciences, long before his work in the socio-chemistry of the erotic achieved its present international eminence. A Category-A classification is the existential organic methodology put into practice. Dr. Stringfellow has repeatedly stressed the vital necessity for the use of this approach. Particularly, in the new social sciences, where variables are infinite and complexity is of the highest possible order.

The nature of erotic research requires that the sexual emotional involvement of the researcher with each subject be taken to its farthest possible extreme. It is only in this way that the researcher, in whose consciousness a total mosaic of his particular research project exists, can divine in each of his subjects a color, a texture, and a shape. And so assign to that subject, his proper place in the research mosaic. Continuar a ler

Dimíter Ánguelov, “Sol Oposto”: 4.

– Proveniência?
– Canárias.
– São sementes de quê?
– Cana-da-índia.
– Só pode importar três sementes de cada vez.
– Isso não faz sentido.
– É a Lei. Já imaginou se todos… Um dia éramos empurrados e afogados ao mar. Afogávamo-nos como ratos. Milhões de ratos.
– Alguns, alguém há-de salvar-se.
– Seja como for. Rodrigues, as sementes levam selo branco?
– Não me diga que…
– Não estou a falar com o senhor.
– Só as que têm diâmetro superior ao do selo.
– E as vagens? Estas não têm diâmetro, pois não?
– Não, essas não têm diâmetro. Aliás a lei é clara: “Sementes que carecem de diâmetro ficam isentas de selo branco.” Está estipulado.
– Pode seguir.
Dei um passo e ouvi:
– Um momento. E esta carta, na sua mão, contém sementes?
– Contém mas são de outra espécie. É uma espécie sem diâmetro, não encapsulada, mas com determinados parâmetros e de difícil enraizamento. Numa palavra, ideias…
– Matéria ideológica?
– Não. Isentas de qualquer preocupação ideológica, partidária, religiosa, nacional ou internacional. Pensamentos livres, curiosos, inúteis,
– Referente às ilhas, ao continente? Ou relacionados com o mundo?
– Relacionados necessariamente com o mundo por ter o mundo, isto é, o universo, o feitio de uma vagem de paredes duplas, sem sementes, estéril e sem aproveitamento prático. Não queira que lhe forneça mais elementos sobre a composição e o seu funcionamento. Porque nos tornamos estranhos mesmo para os mais próximos quando passamos a pensar e a conceber o seu mundo à nossa maneira. Na origem desse mundo está uma infinitude de opiniões, posições, controvérsias de baixo valor teórico.
– Que o mundo seja assim, é compreensível. Que não possa mudar, ainda aceito. Mas que exista – é algo que não pode ter explicação. Portanto, o único valor a declarar é o envelope?
– É, sim senhor. É o envelope, quer dizer, a forma de todo o espaço que preenche o meu imaginário, depositado por razões de segurança neste envelope vazio.
– O senhor não pode entrar no país com um envelope vazio. É a Lei.
Valerá a pena tentar mudar as leis apenas com três sementes e pensamentos difíceis de enraizar no país, fora do mundo ou noutro lugar qualquer?

“A puta de Mensa”, por Woody Allen

“A Puta de Mensa” (The Whore of Mensa), originalmente publicado no New Yorker, foi depois incluído no primeiro livro de Woody Allen, Without Feathers (1975). Existe tradução portuguesa, Sem penas, Bertrand, 1981. O título do conto brinca com a Sociedade Mensa, fundada em Inglaterra em 1946 por Roland Berril e Lance Ware. Mensa é uma sociedade para muitíssimos inteligentes, sendo único requisito para admissão um quociente de inteligência que se situe nos 2% do topo.”

Isto há uma coisa quando se é detective, tem de se aprender a seguir os nossos palpites. É por isso que, quando me entrou pelo escritório um tremebundo monte de banha de nome Word Babcok e pôs as cartas na mesa, eu devia era ter confiado no arrepio que me subia pela espinha.
– Kaiser? – disse ele.- Kaiser Lupowitz?
– É o que diz a minha licença – admiti.
– Tem de me ajudar. Sou vítima de chantagem. Por favor!
Tremia como o cantor de um conjunto de rumba. Empurrei um copo pelo tampo da secretária e uma garrafa de uísque de malte que tenho sempre à mão para fins não medicinais.
– E se te acalmasses e me contasses tudo?
– Você… não diz à minha mulher?
– Sê franco comigo, Word. Não prometo nada. Tentou servir-se de uísque, mas ouvia-se o tilintar do outro lado da rua, e a maior parte do líquido foi parar aos sapatos.
– Eu trabalho – disse. – Manutenção mecânica. Construo e distribuo joy buzzers. Está a ver – aquelas brincadeiras que dão choques às pessoas quando nos apertam a mão.
– E?…
– Há montes de executivos que gostam. Especialmente ali para a Wall Street.
– Vamos ao que interessa.
– Ando muito na estrada. E sabe como é… sinto-me só. Não é o que está a pensar. Percebe, Kaiser, basicamente sou um intelectual. É claro que um gajo pode conhecer todas as bimbas que quiser. Mas uma mulher mesmo cerebral… não se encontra assim do pé para a mão.
– Continua.
– Bem, ouvi falar de uma rapariga. Dezoito anos. Estudante em Yassar. Paga-se um tanto e ela vem discutir um tema qualquer… Proust, Yeats, antropologia. Troca de ideias. Está a ver a ideia?
– Nem por isso.
– Ou seja, a minha mulher é óptima, não me interprete mal. Mas não discute Pound comigo. Ou Elliot. Não sabia isso quando me casei com ela. Preciso de uma mulher que seja estimulante, Kaiser. E estou disposto a pagar por isso. Não quero uma relação… quero uma experiência intelectual rápida, depois quero que a rapariga se vá embora. Que raio, Kaiser, sou casado e sou feliz.
– Há quanto tempo é que isto dura?
– Seis meses. Sempre que sinto desejo, ligo à Flossie. É uma Madame, com mestrado em Literatura Comparada. E ela manda-me uma intelectual, percebe?

Portanto, era um destes tipos cuja fraqueza é mulheres muito inteligentes. Tive pena do pobre coitado. Calculei que devia haver muitos brincalhões na mesma situação, famintos por uma pouca de comunicação intelectual com o sexo oposto, e haviam de pagar fortunas por ela. Continuar a ler

Pingo Doce, 1984

Fantasia negra baseada em “1984″ de Georges Orwell e observações do quotidiano.

 

Ao sair do supermercado naquela tarde de final de Outono, L. sentia um indiscutível júbilo. Afinal, pudera poupar em bacalhau e fraldas o suficiente, talvez, para comprar um brinquedo dos anunciados na televisão para o seu filho mais velho. Talvez, porque embora o dinheiro que poupara tivesse que ser gasto e portanto tinha que existir, agora que não tinha sido gasto era menos provável que chegasse a existir. Mas o júbilo que sentia, esse, era incontestável, inclusivamente lhe alterara a frequência das ondas cerebrais e fazia as glândulas salivares segregarem uma substância que pouco a pouco lhe ia apodrecendo os dentes.

Era todo sorrisos ao atravessar a rua de saco reutilizável na mão em direção à paragem de autocarros. Pelo caminho cruzou-se com M., que esfregava o frio das mãos nos bolsos e matutava pensamentos inquietos, mais uma vez, esse final de tarde também.

“Tenho tudo para ser feliz. Ganho o suficiente para alimentar a minha família e comprar algumas prendas de Natal. Em dias de semana, todos eles, como gramam a lasagna de 1 kg a 2,50€, se enchafurdam com ela e posso passar no bar e pedir uma cerveja. A moça é gira, se não um pouco tonta, excessivamente nova mas pelo menos suficientemente nova para não aliar à despersonalização o gasto e a desvalorização”. Mas estava também ele a pensar em termos mercantis de lucro e dispêndio, e por isso tentou afastar da cabeça a imagem da jovem tiradora de finos.

“Há algo de podre no ar. As pessoas que se vêem na rua deixaram de poder distinguir-se em termos de riqueza do vestuário, usam todos as mesmas cores e o cheiro que deles emana é parecido. É certo que andam felizes, com o bacalhauzinho demolhado em promoção à quarta feira, e a batatinha e o leite em preços baixos toda a semana. Mas é precisamente isso que me preocupa, toda esta satisfação da parte de gente que vive na miséria e é diariamente brutalizada pelos patrões, pela polícia, ou até mesmo pelos anciãos da família”.

Pensando isto, espantou-se consigo mesmo, e instintivamente virou-se para o vidro da cafetaria tentando ver o seu reflexo de mãos espalmadas uma em cada face. Tinha um ar doentio, isso era óbvio. Mas poderiam notar que o seu cansaço de viver lhe vinha das ideias inconformes e das noites mal dormidas, inquieto com medo de ser descoberto? O seu ar contrastava notoriamente com a felicidade despersonalizada das pessoas que, como hipnotizadas, passeavam com os olhos algo vítreos e desfocados. Pareciam embaladas num sonho de que despertavam com um “plim”, não para acordar, mas para passar de uma face à outra de um sonho acordado. Quando caminhavam sós, sem falar com ninguém, pareciam nada ver nem ninguém, e desviar-se das pessoas e objectos apenas por instinto ou alguma espécie de radar. Nas suas cabeças, M. sabia-o, repetia-se quase incessantemente aquela canção que os motivava, lhes invigorava de força os músculos pela manhã, lhes transformava à noite o cansaço em pacífico descanso e doce abandono.

Por isso não viam em M. quaisquer sinais de que ele pensasse fora da medida comum. Ao encontrar na rua a sua figura depressiva, não a reconheciam como humana, e tanto mais depressa se afastavam, por vezes com afoito, como fariam perante um cão raivoso.