It’s my blog and I cry if I want to

Trabalhar é fodido. A minha patroa é uma besta quadrada. Hoje no intervalo fui beber uma cerveja a uma tasca ranhosa e disse ao borracholas desempregado do lado uma frase que soou bem, passo a citar(me): “O trabalho é como as mulheres, um gajo não está bem com ele nem sem ele”.

Algo assim. O que foi uma comparação improvisada de uma frase de alguém sobre as mulheres. Depois voltei para fazer metade do turno da minha colega depois de já ter feito o meu completo, para ser durante mais umas horas sodomizado espiritual e em sentido não literal fisicamente também pela patroa e staff em geral, enquanto divagava mentalmente sobre jams musicais intermináveis, a alegria de ver uma planta comestível ou decorativa brotar, a vontade de ler “O progresso da civilização” de Norbert Elias como parte do meu estudo inacabável sobre a natureza humana, planos rocambolescos acerca de como fazer uma pipa de massa com o mínimo de esforço, e outras coisas com as quais os desempregados profissionais se entretêm.

Por desempregado profissional não me refiro a quem vive à pala do estado, mas antes ao poeta vagabundo, refratário do sistema que por isso mesmo desempenha a função mais nobre, útil e meritória possível à humanidade. “O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser poeta à solta” (Agostinho da Silva, in Conversas Vadias – RTP). Mas, de momento, vou ter de adiar esse meu sonho profissional e continuar a dar o coiro por uma causa em que não acredito. E ainda não sei se fico com a merda do trabalho, ando a dar o coiro à pala, e se mo derem, sentir-me-ei um bocado como o Messi a receber a Bola de Ouro do Mundial: é bonito, fica para a história, mas de momento não me alegra muito.

Melhor parte de trabalhar: já ter saído do trabalho! Oh que alegria. Devo ter uma grande espinha de cristianismo atravessada na garganta para precisar de sofrer durante 1o horas para no tempo restante sentir um enorme prazer por ter passado por esse martírio. É que o tempo livre se torna tão precioso e é tão necessário aproveitá-lo bem, que logo me inundo de alegria se encontro um amigo para conversar, de inspiração se encontro uma guitarra à mão, e a cerveja sabe melhor, e assim por diante.

Podia ficar a divagar sobre o tema durante horas, mas de momento só posso dispor de 20 minutos (já vai em 30 com as emendas) das minhas 2 horas de descanso de hoje – excetuando o sono – a escrever este semi-lamento enquanto ouço um disco antiguinho de Frank Zappa & the Mothers of Invention (aquele que tem a Calling all the Vegetables -eheh – esta faz-me lembrar da técnica do Dani)

O meu trabalho (que ainda não é meu) é espetacular, eu é que sou mentiroso (não choro), mas a minha patroa é mesmo uma besta.

Bochecha inchada

Bochecha inchada, adeus dente do siso,  olá cara 50% de João Soares, prefiguração do meu possível futuro ser aburguesado.

Bochecha inchada. Olho-me ao espelho e vejo-me de outra maneira. Imagino que quem me vir do lado esquerdo me verá de outra maneira. Se eu tivesse duas bochechas assim seria uma pessoa diferente? Sim, na medida em que os outros me veriam com outra forma, e a forma com que os outros nos vêem acaba por ser mais ou menos interiorizada e afeta o eu e a forma como nos imaginamos. A forma das bochechas determina a gama das expressões plausíveis, os diferentes disfarces que se torna necessário aprender, e as maquilhagens compensatórias.

O eu que eu sou começa na ponta do meu nariz, passa pela largura da testa, o tamanho das orelhas, a proeminência do queixo, o diâmetro momentâneo do estômago, a rigidez dos músculos, etc., até à ponta dos pés. O eu que sou começa com tudo isto a emergir no mundo e a praticar ações de conquista/defesa/colonização/saque/e fuga.

Mas detrás do nariz/ponto de mira e dos olhos, está a anima que dá forma à matéria. Não me refiro aos contornos e seu preenchimento, mas à inteligibilidade. Eu sou o modo como escolho/consigo usar o meu nariz, pés, sexo, etc. Eu sou o modo como ponho o meu nariz no mundo. Ele está lá necessariamente, mas eu decido se o torço, levanto para cima… Eu sou esse nariz e o pensamento que o apresenta.

(de momento não consigo libertar-me de um certo dualismo que aqui está latente)

Enfim, tudo virá eventualmente a seguir a sua progressão natural… A bochecha desinchará, o corpo continuará a transformar-se e a envolver-se em trocas e lutas com o mundo, as quais terminarão fatalmente com a desintegração de um ou do outro.

Porque escrever?

Escreve-se não porque se pensa, não porque se atinge uma parte da verdade, mas porque se tem necessidade. Mas de quê? De registar? De comunicar?

O que há de mais incomunicável que pensamentos? E no entanto, ainda que quase todos eles comuns, vulgares, rasos, são-nos necessários, e não podemos tomá-los de empréstimo.

Às vezes o que há a dizer não é simplesmente o real. Não é a verdade. Como as tristes certezas de um velho infeliz demonstram. A isso chama-se silêncio. A palavra é primeiro um chamamento para a festa, comunhão, o que lhe quiserem chamar.

O que é que pode recuperar o valor da escrita, quando se deixa de acreditar na sua necessidade, mas permanece como impulso? Será a estética? Mas se a estética não é mais do que um adorno, longe do essencial?

Poderá ser o enunciar da verdade? Mas porque há-de o verdadeiro, se existir algo como isso, ser escrito mais do que falado? Pois falado, a maior parte das vezes, não o deve ser.

Poderá ser o anotar do pensamento? Mas se o pensamento é intransmissível, e fugaz, e evolutivo, ao ponto de ser de pouca utilidade o seu registo presente para um outro eu futuro?

Ou a escrita como uma sinceridade prostética, em que as palavras procuram um medium menos usual para se exibirem mais despidas, ou ensaiarem novas formas de se velar?

Escreve-se por vão desejo de imortalidade? Porque se sabe algo digno de ser escrito e de ser lido por outros?

Parece inútil, uma vez que o que tenho a dizer não é nada que já não tenha sido pensado e dito antes. Algures, num livro qualquer, se encontram algumas das minhas melhores intuições, e aí mesmo elas jazem inúteis, tão predispostas a serem ignoradas, mal entendidas ou tomadas como banalidades.

Penso que se escreve para procurar uma certa maneira de dizer as coisas. Se se atinge ou não é secundário face ao instinto de nomear o ignoto, e aí a caneta (a “pena”) e a sua lentidão, é apenas um auxiliar de estabilidade do pensamento/senciência.

Escreve-se para auscultar o ser através da linguagem, experimentando novas formas de ordenar o caos e de nos relacionarmos com o mundo. Talvez se escreva também como uma espécie de ensaio da fala, procurando intimidade com as palavras, algo como um bote para o dilúvio das linguagens.

Mas se escrevo para investigar, à minha maneira, a linguagem, movo-me no âmbito da comunicação, da vontade de dizer, de transmitir, fazer entender. E aí levanta-se sempre o problema de qual o melhor modo de dizer.

Qual a forma mais útil, ou eficaz, do escrito? Um discurso longuilíneo em que a exposição do sentido se disciplina à gramática, às regras da sintaxe e da semântica, ou um enunciar sumário, em pontos, se possível quase matemático, quiçá com umas imagens e uns desenhos a ilustrar?

Um discurso íntimo, pouco vigiado, pessoal, ou um discurso comunicativo, exteriorizado? Talvez este último, na ânsia de tudo comunicar, sacrifique o que é menos facilmente comunicável, e um discurso mais rarefeito e abstruso possa comunicar mais, embora com menos certezas, e para menos pessoas.

E o problema de o que dizer e o que calar.

Por vezes, escrever é somente um vício incorrigível.

Hegel sonhava…

Hegel sonhava, a sua arrogância sublimada, e a dialética era jogo, entre crença e ceticismo, o espírito absoluto divagava, entre ser e não ser, mudava de cor com a paisagem sonhada, e a temperatura do sangue era oscilante.

Os quadros dependuravam-se da parede e cumprimentavam-no, o velho duque de Würtemburgo assustava-o com as suas barbas pretensiosas, os cães de uma cena de caça aninhavam-se a seus pés, pedindo uma carícia ou um osso, e o eu que fora Hegel rejubilava de omnipotência diminuída e modesta. Ao acordar, porém, descia sobre Hegel a sisudez nas faces, e o sentido da missão grandiosa, e sobre a ideia da consideração dos homens se erguia o seu vulto, cheio de orgulho e motivação para dominar o real e engarrafá-lo.

Um devaneio num copo de vinho

O meu ideal de funcionamento cerebral (a.k.a. pensamento): uma rotação constante, um prodígio de memória aleatória. Substantivos, verbos e adjetivos unindo-se em combinações inéditas, espontâneas, a cada instante. A cada pensamento, frase ou processo mental, o real revela uma nova faceta ou modifica-se.

As mentes deixariam assim de seguir trilhos de terra batida cheios de calhaus-comuns, a comunicação – a existir – deixaria de basear-se em ajuntar água na massa, sendo antes algo mais como o fluir da luz pelo dia e pela noite, pelas superfícies refletoras, pelas erupções dos vulcões. Um mundo-inteligência-energia, mentes-circuitos de ativação/desativação e sintonização entre real, sonho, êxtase e delírio. Tudo isto enquanto, tranquilamente, tomássemos uma bica e discutíssemos a bola.

E é o que já acontece, nalguns momentos bem aventurados, na tasca do sr. Joaquim, quando o encontro de bom humor. Seja pelas complicações conjugais ou pela qualidade duvidosa do seu extrato de uva, o sr. Joaquim, nas suas palavras e nos seus olhos, por detrás das lunettes, fala ocasionalmente a linguagem dos astros e dos germes em ação sob a epiderme da terra.

Por um mero acaso, enquanto o sopro não decai e o espírito se embrutece com sandes de chouriço.

Instruções de levitação

I

Estás a dormir, mas não o sabes. Concentras-te em ti mesmo, deixas de depender da gravidade. É-te indiferente para onde orientas a cabeça: os órgãos e os membros não te pesam. Agora podes contemplar tudo calma e exatamente, em ângulos diversificados. (Acredito que a levitação tem efeitos positivos sobre as doenças nervosas, stress, tabagismo e impotência)

II

Lembras-te de levitar, não sabes se foi real ou um sonho. Acreditas: não, foi mesmo real, eu consigo. Sentes-te leve, o ar não te sustem, a terra não te pode segurar. Planas como uma pluma pela planície ou montanha (ad libitum). O vento arrasta-te como um balão, por vezes não tens o perfeito controlo, sentes um arrepio. Tens algum receio pela queda, mas quem aprecia a levitação acaba sempre por conseguir aterrar minimamente bem.

As aventuras de Tarazustra muito resumidas

I

Depois de meses isolado na montanha a pensar sobre a maldade presente na natureza humana, Tarazustra julgou entender a sua extensão e intensidade. Foi então capaz de descer a montanha e conviver com os humanos como seus iguais.

II (prequela)

Ao despertar para a mais tenra infância, Tarazustra notou a abundância de pequenas imperfeições no mundo, tais como equívocos na função comunicativa da linguagem, múltiplas calinadas dos jornalistas (que lhe pareciam dever ser dos seres mais inteligentes e bem formados que existem), ou o facto de não ligarem às suas percepções mais acutilantes, e desejou corrigir esses pequenos erros. Sentiu-se feliz por esse desígnio e por se julgar capaz de o realizar. Todavia, ao abandonar essa doce idade de ilusões, percebeu quão difícil ou mesmo impossível, senão fútil, seria tentar remediar essas coisas simples. Tomado por uma enorme fúria, Tarazustra, então a caminho do seu 17º aniversário, subiu pela 1ª vez à montanha e desejou lá ficar e viver como um urso.