No Money No Honey (by Karl)

O que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro for, tão grande é a minha força. As propriedades do dinheiro são minhas – possuidor dele – propriedades e forças essenciais. Portanto, o que eu sou e consigo não é de modo nenhum determinado pela minha individualidade. Eu sou feio, mas posso comprar para mim a mulher mais bonita. Portanto, eu não sou feio, pois o efeito da fealdade, a sua força intimidante, é anulado pelo dinheiro. Eu sou – segundo a minha individualidade – manco, mas o dinheiro proporciona-me 24 pés; não sou, portanto,

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Karlitos em 1860.

manco; eu sou uma pessoa má, desonesta, sem escrúpulos, desprovida de espírito, mas o dinheiro é estimado, portanto também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, portanto o seu possuidor é bom, o dinheiro dispensa-me além disso o trabalho de ser honesto, sou portanto presumido honesto; eu sou desprovido de espírito, mas o dinheiro  é o espírito real de todas as coisas: como havia o possuidor dele ser desprovido de espírito? Além disso, ele pode comprar para si a gente rica de espírito, e quem tem o poder sobre os ricos de espírito não é ele mais rico de espírito que o rico de espírito? Eu, que pelo dinheiro consigo tudo aquilo por que um coração humano anseia, não possuo eu todos os poderes humanos? Não transforma, portanto, o meu dinheiro todas as minhas impotências no seu contrário? 

Karl Marx, Manuscritos económicos e filosóficos de 1844, Edições Avante, p. 149.

Por uma arte inferior

O autor deste blog, já cansado após tantos posts, desgastado pela infrutífera luta diária de tentar transformar o trabalho em tempo livre, achou que ficava bem acabar/começar por escrever uma espécie de manifesto pela arte inferior. Não se sentindo já capaz, resolveu expor as ideias subjacentes ao assunto de modo desordenado e sem grande adorno.

O impulso criativo faz parte da essência do homem. Não se sabe bem o que é a essência do homem, mas para Aristóteles (a minha pesquisa ainda está em curso) deveria ser algo que lhe fosse próprio, isto é, uma caraterística que não partilhasse com outros animais. Seria portanto um certo modo de atividade da alma racional, e até aqui não há contradição com o Filósofo. Ouvi dizer também que para Espinosa a essência do homem é o desejo, mas nunca encontrei a citação. Também não me parece incompatível, pois o desejo parte de uma carência, e portanto aspira à criação do que não existe ou à conquista do que não se tem. Já Gilberto Gil em jovem fez uma canção onde diz “a morte é o nosso impulso primitivo”. Ora, se a morte é a finalidade última da vida, aquilo para que todos os seres naturalmente tendem, é certamente mais poético ir ao seu encontro praticando uma forma de autodestruição criativa. É isso a vida, não? Mas divago.

O essencial da ideia é que a exigência social de que a arte seja boa é provavelmente o maior impedimento a que todos os seres humanos expressem a sua criatividade. É do senso comum que as crianças são mais criativas porque ainda não interiorizaram os padrões de gosto, as comparações, as opiniões dos outros, etc., e se limitam a fazer o que lhes dá na real gana. Não só a inocência com que experimentam todo o tipo de arte de que ouvirem falar é ago que não se devia perder, como é o contexto sem pressão em que um talento melhor se pode exercitar, adestrar e florescer.

Lembro também uma passagem do Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens de Rousseau em que fala da festa como o lugar do surgimento da desigualdade. A partir do momento em que surge alguém que dança ou canta melhor que os outros, atraindo sobre si as atenções, passa a ser tido em maior estima que os outros. É na festa que os seres humanos se habituam a observar os outros e a ser observados, e procuram alguma forma de se destacar na estima dos outros, e sobressair pela beleza, eloquência ou algum outro talento.

Agora, imagine-se uma festa em que todas as pessoas cantam e dançam sem se importarem se dançam bem ou mal, nem com o olhar dos outros ou o que pensam, nem em julgar o talento alheio. Era capaz de ser divertido, não? Poderá parecer uma situação impossível, mas é simplesmente uma festa onde se pretende integrar e aceitar todos, ao invés de conter um subtexto exibicional e competitivo. E uma reunião mais alegre, inocente e isenta de vaidade. Certamente que não pretendo exportar o meu modelo de festa para, por exemplo, Ibiza, mas parece-me apropriado para uma reunião de amigos e conhecidos. Na menor das hipóteses como um exercício, uma variação. Onde tocam, cantam e dançam os melhores temos o concerto, a exibição ou performance. Onde todos participam e há uma grande dose de tolerância para com as imperfeições de cada um, temos o ritual e a comunhão.

O que eu falo é de cada um cantar tão bem quanto consegue, e que os outros tentem apreciar a singularidade da sua voz, a honestidade da sua tentativa, enfim, que não o condenem de pronto à categoria de cantores horríveis. Ok, têm razão, é difícil ouvir a voz de alguém que desafina de modo particularmente irritante. Será mais razoável dizer-lhe que se cale. Porém do facto de ser um mau cantor não se segue que o seu canto seja sem valor. Por exemplo, o bardo Assurancetourix da aldeia de Astérix, é alguém que ninguém suporta ouvir, porém, é um personagem querido de todos. Porquê? Porque canta. Ainda que ninguém goste de o ouvir, gostam de amordaça-lo, amarrá-lo, impedi-lo.

E é um bocado dentro dessa filosofia que eu me encaro enquanto escritor. Uma vez que é algo que gosto de fazer, escrevo quando me apetece. Transformando isso num enunciado geral, o facto de ser mau numa coisa não deve impedir alguém de o fazer se tem vontade. É a única forma de vir a ser melhor, ou decidir-se por outra forma de se evidenciar perante os seus companheiros.

Isso e aqueles poetas regionais, encarados com alguma condescendência pelas autoridades literárias instituídas, que versejam e dessa forma contribuem para criar um folclore, e que encontram o seu público na gente simples. Também faz parte. E os versos dos adolescentes apaixonados, que os próprios renegam mas guardam secretamente anos mais tarde, quem vai dizer que não valiam a pena ter sido escritos? Gostava pois que este texto de abertura/encerramento incitasse os leitores a fazerem arte, nem que má, a procurarem meios de expressar a sua criatividade. Penso que o resultado seria sentirem-se melhor com a vida, pois estariam a responder a um impulso necessário à natureza. Que tanta gente o esqueça quase sempre é uma das tragédias da civilização. E se este texto não levar ninguém a dedicar-se à pintura naïf, fica como a defesa mais ou menos decente de uma ideia.

Tempo e dinheiro

Tempo é dinheiro, logo dinheiro é tempo. E se assim é, é um contrassenso perder tempo para ganhar dinheiro. Nenhum dinheiro substitui o tempo perdido a trabalhar, a não ser que o trabalho tenha por finalidade a produção de tempo livre.

Há quem pense que se trabalha para ganhar dinheiro, mas isso é ver a questão de uma perspetiva algo redutora e muito antiquada. Trabalha-se para se poder usufruir melhor do tempo. Se o dinheiro serve para alguma coisa, é para ganhar tempo, ou então para usá-lo melhor. Senão veja-se: o dinheiro utiliza-se para não ter que cozinhar, não ter que cuidar de filhos ou parentes, não ter que costurar para andar vestido, para viajar, utilizar meios de transporte mais rápidos, fazer férias, obter conhecimento, e de um modo geral pagamos para que façam as coisas por nós.

O erro comum é confundir a qualidade do tempo com a sua quantidade, mas tudo se reduz à possibilidade de ter tempo para usar, e poder usá-lo da melhor forma possível. Ao focar na qualidade do tempo corre-se o risco de perder de vista o essencial, que é ter tempo para gastar. Se o tempo é por natureza algo que dura, terá que ter uma certa quantidade para que se possam produzir diferenças qualitativas no seu aproveitamento, e como qualquer idiota deduzirá, é melhor aproveitar maiores momentos de tempo de qualidade do que momentos menores. Importa é não perder de vista a reversibilidade do dinheiro em tempo, sem o que o trabalho se transforma numa fadiga vã, perversa e sem sentido. É da acumulação eterna que ficamos prisioneiros, se não transformamos o dinheiro em tempo.

O dinheiro não passa de um meio para outras coisas. Ninguém no seu perfeito juízo valoriza o dinheiro em si. O tempo (e o espaço, diria Kant) também é um meio, mas não de modo apenas instrumental. O tempo não serve para atingir alguma outra coisa, é nele, no próprio tempo, que tudo acontece.

Proponho então que se experimente pensar ao contrário: dinheiro é tempo. A finalidade do trabalho não é a produção de dinheiro, mas de tempo. Se não resultar mais cedo ou mais tarde na produção de tempo livre, o trabalho perde o sentido, e a vida toma um de dois caminhos: ou se trabalha para sobreviver e se vive para trabalhar, ou existe-se ao modo dessa espécie particularmente degenerada que é o homo consumericus.

Eu pessoalmente escrevi este texto precisamente porque o trabalho me retira o tempo que quero e o dinheiro não o substituir, mas a deteção de um problema é um passo e a sua solução é outro.

Gulliver explica o que é a lei e a justiça a um Houyhnhnm

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(…) Pediu-me … que lhe explicasse mais pormenorizadamente o que eu entendia por lei e qual o papel dos legisladores, de acordo com o que se usava no meu país. (…)

Respondi-lhe que a lei era toda uma ciência, sobre a qual o pouco que sabia adquirira-o pelo contacto com alguns advogados, consultados, em vão, por mim, na resolução de determinadas injustiças feitas contra mim. Mas que, no entanto, tentaria elucidá-lo o melhor que podia sobre o assunto.

Contei-lhe que havia entre nós uma determinada classe de homens, instruídos desde jovens na arte provar por palavras que “branco” era “preto” e “preto” era “branco”, consoante o que se lhes pagava; e que deles todo o resto da sociedade dependia numa escravidão absoluta.

Por exemplo, se um vizinho meu se lembrasse de cobiçar a minha vaca, contratava um advogado para provar que a vaca, que era minha, devia ser dele. Eu, por meu lado, não tinha outro remédio senão contratar um outro advogado que defendesse os meus direitos sobre a vaca, uma vez que, por lei, não é permitido um homem constituir a sua própria defesa. Ora, neste caso particular, eu, que sou o verdadeiro dono da vaca, estou em grande desvantagem, por duas razões: primeiro, porque tendo o meu advogado praticamente defendido a falsidade desde sempre, encontra-se um pouco fora do seu elemento na defesa da justiça, função pouco natural, que ele encara com embaraço, se não com má vontade; e, segundo, porque o meu advogado se vê obrigado a agir com todo o tacto, correndo o risco de receber alguma repreensão da parte dos juízes ou ser posto de lado pelos seus confrades, por, no desempenho do seu papel, ter minorado a prática da lei. E assim, para conservar a minha vaca, só tenho duas alternativas: ou subornar o advogado do meu adversário, que nessa altura trairá o seu cliente, ou, então, convencer o meu advogado a apresentar injustamente a minha causa, o que, se for feito com habilidade, convencerá os juízes a meu favor.

Estes juízes, continuei, são pessoas designadas para decidir em última instância sobre as questões de bens e nos julgamentos dos criminosos. São escolhidos entre os advogados que mais se distinguiram ao longo da sua carreira, mas que, já idosos, anseiam acima de tudo pelo seu sossego. E, como sempre viveram enganando a verdade e a igualdade, vêem-se com uma fatal necessidade de favorecer a fraude, o perjúrio e a opressão. Conheci alguns deles que chegaram, mesmo, a recusar avultados subornos da parte daqueles que tinham por seu lado a justiça, exclusivamente para não irem contra a sua natureza e ofício.

É uma máxima entre os advogados que tudo o que foi feito pode legalmente ser de novo repetido, tomando eles, nesse sentido, um cuidado especial em registar todas as decisões feitas contra a justiça comum e direito geral da humanidade, que eles designam por “precedentes” e apresentam a justificar as opiniões mais perversas, que os juízes raramente deixam de aceitar.

Quando em debate, muito artificialmente evitam referir os “méritos” de uma causa, para, sonoros, violentos e enfadonhos, atacarem todas as “circunstâncias”, mesmo as que não vêm a propósito. E assim, voltando ao exemplo dado anteriormente, não se interessam em saber quais os direitos do meu adversário sobre a vaca, mas se a dita vaca é vermelha ou preta, se os seus chifres são longos ou curtos, se os pastos onde a mantenho em liberdade são circulares ou quadrados, se ela é ordenhada dentro ou fora do estábulo, a que doenças está sujeita e outras coisas mais. Passada esta fase, consultam “precedentes” e vão adiando a causa, até que, passados dez, vinte ou trinta anos, chegam finalmente a uma conclusão.

Faz esta sociedade uso de uma linguagem muito peculiar, tanto no fraseado como no modo de expressão, de compreensão impossível para o profano. Nela estão escritas todas as suas leis, que eles têm tido um cuidado especial em multiplicar, e com ela lançam a confusão entre a verdade e a mentira, o bem e o mal. Não é de estranhar, portanto, que sejam precisos perto de trinta anos para determinar se a propriedade que me foi deixada pelos meus antepassados de há seis gerações me pertence a mim ou ao estranho que se encontra a três milhas de distância.

No julgamento de pessoas acusadas de crime contra o Estado, o processo é bem mais breve e recomendável: o juiz começa por se informar sobre a disposição dos que se encontram no Poder, depois do que tem toda a liberdade para enforcar ou salvar o criminoso, desde que preserve com rigor o aspeto exterior da lei.

Fui nessa altura interrompido pelo meu amo, que lamentou que criaturas tão generosamente dotadas de capacidades intelectuais, como estes advogados que eu descrevera, não se sentirem chamadas antes a participar aos outros toda a sua sabedoria e conhecimento. Respondi-lhe que não se iludisse, que, no seu ofício, eles eram os mais ignorantes e estúpidos, incapazes de manterem uma conversa sem artifícios, inimigos declarados de qualquer manifestação de conhecimentos ou cultura e dispostos a perverterem tudo o que não dissesse respeito à sua própria profissão.

 

Jonathan Swift, “As Viagens de Gulliver” (1726), Parte IV – Viagem ao país dos Houyhnhnms, cap. V. Páginas 265-268 da edição Biblioteca Visão.

Sonho de um burocrata filantropo

… destruir todas as faturas do mundo e todos os recibos, registos e arquivos de semelhantes, todos os processos e requerimentos, todas as fardas de serviço, todos os uniformes, e queimar tudo numa grande fogueira à volta da qual nos banqueteássemos e regozijássemos com as coisas boas da vida (comida, bebida, saúde, amor, alegria, o trabalho quando tendo uma finalidade útil, etc.). Num gesto ritual todos os burocratas, funcionários, secretários, rececionistas, técnicos de contas, advogados, juízes, fiscais, etc., despem as suas fardas e juntam-nas ao lume. Em seguida todos dançam à sua vontade, com ou sem jeito, sem grande preocupação com o virtuosismo na coreografia ou pela impressão causada uns nos outros.

E a partir daí avançar para um mundo novo, como não sei… isto é só um sonho…

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Nota: O presente escriba foi uma espécie de burocrata em treino durante uma ou duas semanas, e ao 3º dia de trabalho semi-oficial (hoje), para o qual estaria prevista a assinatura de um contrato, começou a escrever este pequeno texto num minuto parado do serviço. Acabou o mesmo já em casa, depois de uma boa soneca, tendo sido despedido ainda a meio do turno da manhã. Um burocrata sonhador foi despedido, e o mundo ficou um lugar (ligeiramente) mais respirável por causa disso. Tudo fica bem quando acaba bem.

Pingo Doce, 1984

Fantasia negra baseada em “1984″ de Georges Orwell e observações do quotidiano.

 

Ao sair do supermercado naquela tarde de final de Outono, L. sentia um indiscutível júbilo. Afinal, pudera poupar em bacalhau e fraldas o suficiente, talvez, para comprar um brinquedo dos anunciados na televisão para o seu filho mais velho. Talvez, porque embora o dinheiro que poupara tivesse que ser gasto e portanto tinha que existir, agora que não tinha sido gasto era menos provável que chegasse a existir. Mas o júbilo que sentia, esse, era incontestável, inclusivamente lhe alterara a frequência das ondas cerebrais e fazia as glândulas salivares segregarem uma substância que pouco a pouco lhe ia apodrecendo os dentes.

Era todo sorrisos ao atravessar a rua de saco reutilizável na mão em direção à paragem de autocarros. Pelo caminho cruzou-se com M., que esfregava o frio das mãos nos bolsos e matutava pensamentos inquietos, mais uma vez, esse final de tarde também.

“Tenho tudo para ser feliz. Ganho o suficiente para alimentar a minha família e comprar algumas prendas de Natal. Em dias de semana, todos eles, como gramam a lasagna de 1 kg a 2,50€, se enchafurdam com ela e posso passar no bar e pedir uma cerveja. A moça é gira, se não um pouco tonta, excessivamente nova mas pelo menos suficientemente nova para não aliar à despersonalização o gasto e a desvalorização”. Mas estava também ele a pensar em termos mercantis de lucro e dispêndio, e por isso tentou afastar da cabeça a imagem da jovem tiradora de finos.

“Há algo de podre no ar. As pessoas que se vêem na rua deixaram de poder distinguir-se em termos de riqueza do vestuário, usam todos as mesmas cores e o cheiro que deles emana é parecido. É certo que andam felizes, com o bacalhauzinho demolhado em promoção à quarta feira, e a batatinha e o leite em preços baixos toda a semana. Mas é precisamente isso que me preocupa, toda esta satisfação da parte de gente que vive na miséria e é diariamente brutalizada pelos patrões, pela polícia, ou até mesmo pelos anciãos da família”.

Pensando isto, espantou-se consigo mesmo, e instintivamente virou-se para o vidro da cafetaria tentando ver o seu reflexo de mãos espalmadas uma em cada face. Tinha um ar doentio, isso era óbvio. Mas poderiam notar que o seu cansaço de viver lhe vinha das ideias inconformes e das noites mal dormidas, inquieto com medo de ser descoberto? O seu ar contrastava notoriamente com a felicidade despersonalizada das pessoas que, como hipnotizadas, passeavam com os olhos algo vítreos e desfocados. Pareciam embaladas num sonho de que despertavam com um “plim”, não para acordar, mas para passar de uma face à outra de um sonho acordado. Quando caminhavam sós, sem falar com ninguém, pareciam nada ver nem ninguém, e desviar-se das pessoas e objectos apenas por instinto ou alguma espécie de radar. Nas suas cabeças, M. sabia-o, repetia-se quase incessantemente aquela canção que os motivava, lhes invigorava de força os músculos pela manhã, lhes transformava à noite o cansaço em pacífico descanso e doce abandono.

Por isso não viam em M. quaisquer sinais de que ele pensasse fora da medida comum. Ao encontrar na rua a sua figura depressiva, não a reconheciam como humana, e tanto mais depressa se afastavam, por vezes com afoito, como fariam perante um cão raivoso.