8 aforismos

O conhecimento é um movimento parcialmente bem-sucedido de tentar sair da ignorância.

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Se todos pensássemos de forma correta, estaríamos de acordo sobre o fundamental. Mas acerca do que conversaríamos?

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Eu percebo alguma coisa das coisas quando acompanho um movimento, e encontro um mundo onde ainda não havia entrado.

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A inteligência é uma propriedade privada, e o espírito uma força que ainda ninguém conseguiu colocar ao serviço da humanidade.

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A burguesia julga que é a única coisa que existe e que não existe a burguesia.

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Os seres humanos têm segredos porque é da natureza de cada um fazer coisas que o seu conjunto reprova.

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Uma vez que nos banhamos num rio é difícil esquecermo-nos dele.

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Os seus belos seios, debaixo da t-shirt justa que os realça. Percebes mesmo que são dois, cada um deles portentoso e cheio de significado.

 

Novos aforismos de Dimíter Ánguelov

Edição (limitada a 100 exemplares): Debut sur l’Oeuf, Coimbra, 2014.

Dimiter

* Há movimentos de alma tão lentos ou tão rápidos que muitas vezes é impossível saber se são nossos ou alheios.

* À liberdade só se pode chegar livremente e não conquistá-la pela razão.

* Tudo aquilo que somos é um passado a dormitar.

* Muitos preferem a estupidez séria à brincadeira inteligente.

* Eles não se amavam mas eram felizes porque amavam os mesmos santos e as mesmas santas.

* Comunicamos graças à imprecisão dos significados e dos sentidos.

* Gosta-se do corpo. Ama-se a alma. Admira-se o espírito.

* Há uma única razão para ser optimista: a certeza de que mais tarde ou mais cedo deixaremos de o ser.

* Quando reparamos que as abomináveis traças nos esburacaram a roupa elas já são belas borboletas que nos alegram com o seu voo inocente.

* A iluminação não é um objectivo mas uma irreversibilidade.

* Se julgarmos pela maneira como Deus rege o Universo, aqui na Terra Ele não chegaria a director de jardim zoológico.

* Os aforismos são como pedras preciosas – mesmo quando se partem não é de qualquer maneira. Partem-se em pedaços preciosos.

* Para se sobreviver é preciso amar uma pessoa, uma árvore, um animal, uma pedra, um vício. Porque amar a vida é um vício incorrigível.

* A vida faz mal à saúde.

Aforismos de Dimiter Ánguelov (II)

À verdade nada se pode acrescentar, à mentira – tudo.

As recordações são como os papéis, quando se tenta amachucá-las passam a ocupar mais espaço.

Muitos não compreendem o destino, porque este escreve de trás para a frente.

A máxima é o mínimo que se pode dizer sobre aquilo que é impossível fazer.

Não compreendemos a vida, porque não sabemos separá-la da sua explicação.

Alguns sentimentos são como certas pessoas que conhecemos muito bem mas nunca descobrimos de onde.

Às vezes, não se brilha senão para esconder a fonte da luz.

Quem mastiga o aforismo não o entende, quem o saboreia demoradamente estraga-o.

O presente ideal é aquele que nos é enviado por alguém que não nos conhece e não nos quer conhecer.

A partir de certa altura é tarde para começar e cedo para acabar.

A Terra é a peça universal de todos os relógios que nela funcionam ou não.

Não esperem pois nada se desloca do seu tempo.

 

Ver também: https://centopeias.wordpress.com/2012/01/02/aforismos-de-dimiter-anguelov/

Aforismos de Dimíter Ánguelov

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
  
fotografia: Dimíter Ánguelov
 

É assim que um aforismo é feito: apanha os pontos certos de um fio narrativo, junta-os num nó e desfaz-te do resto.

A liberdade, caro passarinho, não é sair da gaiola, mas ser capaz de voar com ela.

Há tão poucas verdades que para serem vistas elas precisam ser aumentadas com mentiras muito grandes.

Aumentamos o raio de uma verdade quatro vezes, depois multiplicamos-o por 2π e obtemos o perímetro de uma grande mentira.

Examinámos o nada em proximidade de um ângulo diferente: o nada parecia o mesmo; nós não.

Eu levantei-me contra todos. Começaram o odiar-me. Pus-me de acordo com todos. Condenaram-me.

Os rouxinóis cantavam mal, tão mal que nem sequer mereciam o seu nome. Mas é assim frequentemente com a poesia.

No cume da felicidade nunca há lugar para dois.

Atámos as duas pontas do fio de Ariadne e obtivémos uma labirinto perfeito.

O senso comum é como uma bola: não importa quanto a desviemos, nunca viaja para muito longe do seu centro.

Observa a Ursa Maior cuidadosamente e descobrirás que as formas são apenas uma aparição de números.

A maior das dificuldades começa quando o nosso maior sonho se torna na nossa única oportunidade.

A evolução é uma longa cadeia, que se divide em dois, quatro e assim por diante, e o número de elos cresce incessantemente. Até que todos desaparecem com a divisão do último elo.

O eixo perfeito é aquele que é desprovido de tudo excepto do movimento.

O verdadeiro filósofo tem uma única tarefa: a de demonstrar que em filosofia ninguém está absolutamente certo, incluindo ele, que pretende estar.

 
Traduzido do búlgaro para o inglês por Valentin Krustev e Donna Martell, e do inglês para o português por mim, com uma ajudinha do Google Tradutor.
 
Dimíter Ánguelov nasceu (parece que) em 1945. Desde 1981, vive em Portugal. Tem uma licenciatura ou um outro grau superior em filologia germânica, mas encontrou a sua paixão na filosofia e nas línguas românicas. Trabalhou como crítico literário, professor e tradutor. Tem livros editados na & etc, na Ática e noutras editoras, aparentemente escritos em português, e para além disso parece ser uma personagem algo misteriosa da qual é difícil saber mais do que isto que acabei de adiantar.