Por uma arte inferior

O autor deste blog, já cansado após tantos posts, desgastado pela infrutífera luta diária de tentar transformar o trabalho em tempo livre, achou que ficava bem acabar/começar por escrever uma espécie de manifesto pela arte inferior. Não se sentindo já capaz, resolveu expor as ideias subjacentes ao assunto de modo desordenado e sem grande adorno.

O impulso criativo faz parte da essência do homem. Não se sabe bem o que é a essência do homem, mas para Aristóteles (a minha pesquisa ainda está em curso) deveria ser algo que lhe fosse próprio, isto é, uma caraterística que não partilhasse com outros animais. Seria portanto um certo modo de atividade da alma racional, e até aqui não há contradição com o Filósofo. Ouvi dizer também que para Espinosa a essência do homem é o desejo, mas nunca encontrei a citação. Também não me parece incompatível, pois o desejo parte de uma carência, e portanto aspira à criação do que não existe ou à conquista do que não se tem. Já Gilberto Gil em jovem fez uma canção onde diz “a morte é o nosso impulso primitivo”. Ora, se a morte é a finalidade última da vida, aquilo para que todos os seres naturalmente tendem, é certamente mais poético ir ao seu encontro praticando uma forma de autodestruição criativa. É isso a vida, não? Mas divago.

O essencial da ideia é que a exigência social de que a arte seja boa é provavelmente o maior impedimento a que todos os seres humanos expressem a sua criatividade. É do senso comum que as crianças são mais criativas porque ainda não interiorizaram os padrões de gosto, as comparações, as opiniões dos outros, etc., e se limitam a fazer o que lhes dá na real gana. Não só a inocência com que experimentam todo o tipo de arte de que ouvirem falar é ago que não se devia perder, como é o contexto sem pressão em que um talento melhor se pode exercitar, adestrar e florescer.

Lembro também uma passagem do Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens de Rousseau em que fala da festa como o lugar do surgimento da desigualdade. A partir do momento em que surge alguém que dança ou canta melhor que os outros, atraindo sobre si as atenções, passa a ser tido em maior estima que os outros. É na festa que os seres humanos se habituam a observar os outros e a ser observados, e procuram alguma forma de se destacar na estima dos outros, e sobressair pela beleza, eloquência ou algum outro talento.

Agora, imagine-se uma festa em que todas as pessoas cantam e dançam sem se importarem se dançam bem ou mal, nem com o olhar dos outros ou o que pensam, nem em julgar o talento alheio. Era capaz de ser divertido, não? Poderá parecer uma situação impossível, mas é simplesmente uma festa onde se pretende integrar e aceitar todos, ao invés de conter um subtexto exibicional e competitivo. E uma reunião mais alegre, inocente e isenta de vaidade. Certamente que não pretendo exportar o meu modelo de festa para, por exemplo, Ibiza, mas parece-me apropriado para uma reunião de amigos e conhecidos. Na menor das hipóteses como um exercício, uma variação. Onde tocam, cantam e dançam os melhores temos o concerto, a exibição ou performance. Onde todos participam e há uma grande dose de tolerância para com as imperfeições de cada um, temos o ritual e a comunhão.

O que eu falo é de cada um cantar tão bem quanto consegue, e que os outros tentem apreciar a singularidade da sua voz, a honestidade da sua tentativa, enfim, que não o condenem de pronto à categoria de cantores horríveis. Ok, têm razão, é difícil ouvir a voz de alguém que desafina de modo particularmente irritante. Será mais razoável dizer-lhe que se cale. Porém do facto de ser um mau cantor não se segue que o seu canto seja sem valor. Por exemplo, o bardo Assurancetourix da aldeia de Astérix, é alguém que ninguém suporta ouvir, porém, é um personagem querido de todos. Porquê? Porque canta. Ainda que ninguém goste de o ouvir, gostam de amordaça-lo, amarrá-lo, impedi-lo.

E é um bocado dentro dessa filosofia que eu me encaro enquanto escritor. Uma vez que é algo que gosto de fazer, escrevo quando me apetece. Transformando isso num enunciado geral, o facto de ser mau numa coisa não deve impedir alguém de o fazer se tem vontade. É a única forma de vir a ser melhor, ou decidir-se por outra forma de se evidenciar perante os seus companheiros.

Isso e aqueles poetas regionais, encarados com alguma condescendência pelas autoridades literárias instituídas, que versejam e dessa forma contribuem para criar um folclore, e que encontram o seu público na gente simples. Também faz parte. E os versos dos adolescentes apaixonados, que os próprios renegam mas guardam secretamente anos mais tarde, quem vai dizer que não valiam a pena ter sido escritos? Gostava pois que este texto de abertura/encerramento incitasse os leitores a fazerem arte, nem que má, a procurarem meios de expressar a sua criatividade. Penso que o resultado seria sentirem-se melhor com a vida, pois estariam a responder a um impulso necessário à natureza. Que tanta gente o esqueça quase sempre é uma das tragédias da civilização. E se este texto não levar ninguém a dedicar-se à pintura naïf, fica como a defesa mais ou menos decente de uma ideia.

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