Tempo e dinheiro

Tempo é dinheiro, logo dinheiro é tempo. E se assim é, é um contrassenso perder tempo para ganhar dinheiro. Nenhum dinheiro substitui o tempo perdido a trabalhar, a não ser que o trabalho tenha por finalidade a produção de tempo livre.

Há quem pense que se trabalha para ganhar dinheiro, mas isso é ver a questão de uma perspetiva algo redutora e muito antiquada. Trabalha-se para se poder usufruir melhor do tempo. Se o dinheiro serve para alguma coisa, é para ganhar tempo, ou então para usá-lo melhor. Senão veja-se: o dinheiro utiliza-se para não ter que cozinhar, não ter que cuidar de filhos ou parentes, não ter que costurar para andar vestido, para viajar, utilizar meios de transporte mais rápidos, fazer férias, obter conhecimento, e de um modo geral pagamos para que façam as coisas por nós.

O erro comum é confundir a qualidade do tempo com a sua quantidade, mas tudo se reduz à possibilidade de ter tempo para usar, e poder usá-lo da melhor forma possível. Ao focar na qualidade do tempo corre-se o risco de perder de vista o essencial, que é ter tempo para gastar. Se o tempo é por natureza algo que dura, terá que ter uma certa quantidade para que se possam produzir diferenças qualitativas no seu aproveitamento, e como qualquer idiota deduzirá, é melhor aproveitar maiores momentos de tempo de qualidade do que momentos menores. Importa é não perder de vista a reversibilidade do dinheiro em tempo, sem o que o trabalho se transforma numa fadiga vã, perversa e sem sentido. É da acumulação eterna que ficamos prisioneiros, se não transformamos o dinheiro em tempo.

O dinheiro não passa de um meio para outras coisas. Ninguém no seu perfeito juízo valoriza o dinheiro em si. O tempo (e o espaço, diria Kant) também é um meio, mas não de modo apenas instrumental. O tempo não serve para atingir alguma outra coisa, é nele, no próprio tempo, que tudo acontece.

Proponho então que se experimente pensar ao contrário: dinheiro é tempo. A finalidade do trabalho não é a produção de dinheiro, mas de tempo. Se não resultar mais cedo ou mais tarde na produção de tempo livre, o trabalho perde o sentido, e a vida toma um de dois caminhos: ou se trabalha para sobreviver e se vive para trabalhar, ou existe-se ao modo dessa espécie particularmente degenerada que é o homo consumericus.

Eu pessoalmente escrevi este texto precisamente porque o trabalho me retira o tempo que quero e o dinheiro não o substituir, mas a deteção de um problema é um passo e a sua solução é outro.

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