Introdução do livro “Mil Milhões de Centopeias” (excertos)

Há alguns anos comecei a escrever um blog intitulado Mil Milhões de Centopeias. Na altura pensava que através da multiplicidade de textos poderia compor um retrato relativamente fiel da minha forma de pensar, e esperava que a escrita ajudasse a clarificar e articular algumas ideias que pairavam no meu espírito. Também tinha como objetivos praticar a escrita e tentar habituar-me a ser lido por outras pessoas. Acabei por concluir que o pensamento é dinâmico e talvez indeterminável: se conseguir caraterizar o seu estado num dado momento, já entretanto se transformou noutra coisa. A partir daí a escrita no blog tornou-se mais lúdica, embora pontualmente atravessada por questões existenciais.

O sentido do título tem a ver com as incontáveis coisas, pessoas ou formas de condicionamento social que tendem a obstruir a manifestação da individualidade e o pensamento autêntico. São milhões porque na sua quantidade e força, de pequeninas que são, chegam a ocultar a existência de outros seres e formas de existir, e são centopeias porque provocam, pelo menos a mim, uma reação de repulsa. Por outro lado é apenas uma frase sem sentido cuja sonoridade que me agrada. Este livro é uma seleção dos melhores textos que aí foram publicados entre 2011 e 2015, com alguns remendos, emendas e acrescentos. Consiste em pensamentos, sátiras e fantasias que fui tendo ao longo deste tempo, misturando textos que foram escritos a pensar num eventual público com outros mais introspetivos.

A decisão de publicar esta miscelânea em livro veio de querer encerrar uma fase, reunindo textos que já se vão tornando antigos, e dar alguma ordem àquilo que considero ser um apanhado da minha juventude tardia. Reunir textos já escritos pareceu-me uma maneira simples de terminar um livro e dá-lo a conhecer a um conjunto de amigos. No entanto, (…) O que inicialmente era para ser um objeto artesanal produzido no espírito do it yourself, por efeito da pressão de algumas pessoas acabou por tornar-se num objeto-livro mais formal, com direito a impressão profissional, ISBN e uma capa gentilmente composta por um designer amigo. Todo esse profissionalismo acabou por tornar mais trabalhoso o processo de terminar este empreendimento, mas, com alguma teimosia, aqui está.

Publicar este livro tem menos a ver com achar que o seu conteúdo tem uma qualidade que o justifique, e mais com tentar forçar-me a deixar de ser um daqueles gajos que escreve umas coisas que não mostra a ninguém. Sem falsa modéstia, considero-me igual a tantos outros que gostam de escrever mas não acham, ou duvidam, que o que fazem seja suficientemente bom para ser publicado. Embora ache que fora do meu círculo de meus amigos e conhecidos o interesse destes escritos seja reduzido, decidi-me a combater as minhas inseguranças e aceder ao desejo que ocasionalmente sinto de incomodar os outros com as minhas observações. Faço-o também como um passo que me é necessário para possivelmente no futuro me arriscar num projeto mais ambicioso.

(…)

Isto contém, portanto, desde parvoíces escritas nos meus tempos de estudante de filosofia até textos mais recentes. Bons ou maus como sejam, com as suas qualidades e defeitos, são o que me apeteceu escrever, ou desse conjunto de coisas as que me pareceram mais aptas a mostrar a outras pessoas. O mundo já está cheio de letras, textos e escritores. Está sobretudo cheio de gente pretensa de ter razão, e que chateia os outros com as suas opiniões. Este livro também é curto porque sempre procurei evitar escrever palha. Procurei a sucintez, por vezes tendo sido reencaminhado ao silêncio. Olho para estas páginas e acho-as poucas e pouco significantes. Mas para mim têm o valor de me lembrarem de todas as coisas que gostava de descrever e não consigo, todas as coisas que gostava de escrever e ainda não o fiz, os escritos abandonados, inacabados, incompletos ou disformes… No fundo, todas as minhas ideias, o meu ser e o que acho importante, e o que podia ter feito de melhor.

O que é que isto interessa aos outros é algo que não sei, mas espero que o feedback que venha a receber desta iniciativa sirva como um incentivo ou um corretivo. Apelo, portanto, ao patrocínio deste jovem semiletrado (ou serei já um semijovem letrado?), sob a forma de donativos em troca deste opúsculo, que calculo ter o valor aproximado de um hambúrguer acompanhado por uma cerveja e um cafezinho. Também estou disponível para conversar e beber qualquer coisa.

21 de agosto de 2016.

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