O lado positivo do cheiro a mijo

Quando estás positivo, encontras prazer no reconhecimento de coisas nojentas, como o cheiro a mijo nas calçadas (podia dar mais exemplos mas acho que este basta). Não é o cheiro em si que dá prazer, mas o facto de haver uma gama de sensações tão ampla, de prazer e dor, cheiros atraentes e agradáveis e outros repulsivos. Os maus cheiros também nos permitem apreciar o dom do olfacto; não só por comparação negativa com as coisas cujo cheiro é agradável, não só por demonstrarem a potência do nosso olfacto, mas porque até o cheiro a mijo é uma coisa que tem uma potência, uma força que deve ser reconhecida. Gosto do cheiro a mijo nas calçadas. Faz-me sentir vivo.

Num dia excecional, e é fundamental tê-los, todas as sensações comuns, de prazer e dor, alegria ou tristeza, são sentidas com uma intensidade inabitual. A dor mistura-se com uma alegria que se desprende das coisas mais banais, a consciência vibra ao menor estímulo em harmónicos bem definidos, cada coisa aparece banhada por uma luz intensa e dotada de profundidade e amplitude. As ligações entre as coisas são mais salientes, e nas coisas paradas pode-se imaginar (relembrar?) o ciclo das estações, o surgimento da vida, a morte das estrelas. Podia ficar horas a contemplar as folhas a serem abanadas pelo vento.

Mas como estou comparativamente velho em relação ao mais jovem que já fui, sei que virá logo de seguida o sofrimento, por não conseguir agarrar o movimento, por não poder unir-me com a transformação, por não a conseguir compreender. Já sofro, por estar alegre, por ver beleza onde outras vezes só vejo miséria, comove-me que a alegria seja algo tão especial e que a tristeza seja afinal tão banal e insignificante. Noutro dia será o inverso, e toda esta positividade uma mentira abjeta.

… E saber que a razão não está na exaltação, nem na paixão, embora nos seja absolutamente necessário por vezes atingir esse cume (“no cume da montanha não há lugar para dois”, anguelov), é também necessário descer… e aprender a arte de um festivo tranquilo, moderado, ciente de que o lamúrio é recorrente, e que até mesmo de alegria o excesso se torna insuportável.

… Mas nunca a mediania, nunca uma equidistância tranquila e indiferente entre o hórrido e o belo. Prefiro os altos e baixos, “prefiro ser essa metamorfose ambulante”. Não o consigo evitar, e já agora, da fatalidade faço uma escolha. 

Eu diria, portanto, que acho agradável ter sensações desagradáveis quando se está com uma visão muito positiva da realidade, mas felizmente nem sempre me sinto assim.

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