“Comunidade”, de Luiz Pacheco (1964)

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Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente silenciosamente duma igual vivificante seiva.

É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados: uma pernita de criança, um braço nu sozinho, um punho fechado (um adeus?… uma ameaça?…), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.

Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo, mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

Agora, sentado aqui na cama e escrevendo inclinado para a lâmpada do pequeno candeeiro em tulipa azul de vidro fosco, sinto nos rins o rosto da Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, a sua mão, muito branca e esguia, pálida, quase morta, avançou numa aflição de afogado e veio agarrar-se a mim, junto à sebenta sem linhas onde a esferográfica de tinta vermelha deixa riscos e traços, bolinhas abauladas dos OOO e outras argolas mais do alfabeto, um rasto leve de sangue a fingir, sangue inventado, transposto em palavras e sinais, quieto ali à vista, seco para sempre, moldado, concentrado numa raiva, sujo de palavras, desconforme, sabe-se lá quando mentiroso ou verdadeiro, mas já descansando do seu apressado infatigável zeloso viajar pelo corpo. Sem a dignidade do sangue quente que gira pelas veias e artérias, ora escuro ora mais oxigenado, mas com a gravidade do que esguicha, raivoso, ou escorre, devagar, delicado, das feridas, sangue que vem lá de dentro do corpo com uma força definida, uma coisa a dizer, um sintoma a revelar. Uma voz, se preferem.

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A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas caprichosas, perigos desconhecidos. É uma imagem literária, esta, da cama-jangada; a literatura, a quem muito, sofregamente lê, dá isto: comparações para tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa de todos os dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver; antes a figurar-se. Permite, talvez, uma certa coerência (interior). Não é importante, afinal – mas que será importante, afinal?

Vamos na jangada. Já estamos tão habituados que nem reparamos (é mesmo assim!). Antes de nascer o bebé, o Paulo Eduardo, era pior: havia sempre o receio por esse desconhecido, cuja cara não víamos, escondida como estava na barrica barriga da mãe, e não sabíamos quem era e como era e o que queria. Talvez um inimigo. Talvez um diferente de nós. Talvez um descontente. Um intruso. Ele só dava sinais (aliás, incompreensíveis, para quem não tiver grande prática) através dumas palpitações, remexidelas, cambalhotas, pontapés no escuro (longa noite primeira, o denso mar original), cabeçadas sob a pele de tambor esticada do odre materno. Mas apareceu e já estamos mais sossegados. Não é um estranho nem um inimigo. É um bebé, apenas um bebé. Um igual a tantos, ao que já fomos, e chora e borra e mija e mama como todos os bebés. Mama como quem está a puxar a vida do corpo da mãe, vida quente e docinha, tão fácil! tão gulosa!, para dentro dele. Caga e mija como quem ri do mundo, do muito que nele há para a gente rir, misérias e tristezas, aleluias e horas de prazer, que tudo vale o mesmo e tudo é o mesmo fumo e tem o mesmo fim. Chora como quem já sabe isso.

Dorme ao lado da mãe. Uma carinha de velho engelhada, o focinhito moendo e remoendo, abanicando a chupeta, num tique de focinho de coelho. Este (o bebé) tem uma vantagem, um privilégio singular, o chamado direito de opção: podia dormir no berço, se quisesse; um berço novinho em folha, de vime seco, barato, sem luxos de colchoaria ou rendas finas ou forros vistosos de chita, mas inda assim confortável e limpo, arejado, independente, com lençóis. E neste Inverno houve também noites em que a Lina podia escolher: se quisesse, dormia no chão dentro do gavetão ou sapateira do guarda-vestidos, parecia um caixão aberto, com o anjinho lá dentro, em cima de roupas velhas, um casaco e umas calças minhas já intrajáveis.

Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e ciumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos, descomposturas, carícias leves… Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira rangente, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!

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Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, me penetra e tranquiliza, me lembra – e por que não ?! – coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado, tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção, a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua – onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas).

A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos – íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falarvos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros – espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.

Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neorealista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. Ás vezes, muitas vezes, beijos e abraços. Ás vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo era uma verdadeira toira!» ou esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas, o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da Reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas…

Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula – a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! Bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.

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Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo: “não me deixes morrer, não deixes…” Penso para comigo, repito para me convencer: “esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda…”»E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei…).

Mas a minha força é grande. Respiro ao mesmo tempo por cinco pulmões; quatro corações jovens (certeiros e cheios) com muitos anos de corda para badalar, batem ao lado do meu e dão-lhe ânimo e companhia, eia! sus! avante! para mais uma jornada. Um grito, um riso, um gemido, um bafo abafado na roupa, uma conversa entaramelada que tento perceber do Luís José que se julga (calculo) a brincar na rua com a malta, felizardo ou infeliz, o pátio de recreio dele é uma cidade inteira – eu olho, comparo, medito, aflijo-me, respiro pior tomo aminofilina respiro melhor, duvido, estremeço, dão-me arrepios e aposto: no futuro, amigos, no futuro que são eles. E deito contas, arrelio-me, barafusto, dou bofetões, pontapés (de que logo me arrependo, mas a biqueira do sapato já encontrou um rabo), procuro criar um tanto de ordem na desordem, porque não se pode viver no caos, sem uma saída para o transcendente, o Supremo Bem que me preocupa são eles, os bambinos, a minha imortalidade, frágil, incerta, tão precisada por ora de mim e eu tão atormentado e cansado, gasto, velho por dentro e por fora (um velhote), mas orgulhoso dela, mas apostando neles tudo quanto posso, tudo quanto tenho, a minha imortalidade serão talvez eles e mais nada, talvez estes, aqui apertados nesta cama gingona, encalorados ou friorentos mas felizes, pedindo pão a rir, inocentes mas felizes porque a miséria ainda os não roeu na alma, a minha imortalidade tão pequenina e discreta, serena dormindo agora. Três setas apontadas: aonde? e até quando? e contra mim ou não, e porquê? mistérios esses que nem o Filósofo Maldonado Gonelha, de Setúbal, será capaz de explicar. Alvo incerto como a nossa trajectória, e tudo estremecente de vida, ondulante e diversa.

Sei (e não me esqueço) que eles, fora de mim, pedaços de mim repartido, têm corda própria e seguirão seus rumos por esse mundo, cada vez mais distantes e dispersos, indiferentes à origem, cada vez sabendo menos de mim, comigo vivo ou morto. É a Lei. A flor não pergunta à abelha para que lhe rouba o pólen. A semente surgindo lentamente da terra – quem lhe encomendou o sermão? pensará no futuro? ou o futuro é ela que ali está a crescer? Turbilhão da Natureza no seu perpétuo móvel (móbil). Caos medonho, mas é aí que estamos. Sei tudo isso. Sei que partirão um dia ou me deixarão partir, sem cuidados, sem remorsos nenhuns, talvez com alegria até. Sinto obscuramente, porém com que certeza, que sou o elo duma cadeia eterna, a começar sabe-se lá onde ou quando, a findar talvez nunca mais, e que não a traí; submisso à Lei. Alegre e cheio de pavor. Tocando com as mãos, tão perto! a carne que me continua. O Luís José tem nos olhos castanhos a mesma doçura dos olhos de minha Mãe e é aí que ela está ainda viva; uma covinha na face esquerda da Lina, é minha; o Paulocas reabre um silêncio que meu Pai mantém fechado num coval do cemitério de Bucelas. Submisso à Lei: olhando-me na pequenez e no que tem afinal de cómico a rábula que represento nesta vida e não desesperando de todo em todo do personagem. Tão rápido tudo e hesitante! Mas aqui, agora no momento em que escrevo (e tudo está certo e tudo permanecerá assim, porque o escrevo) antes da luz da manhã, enquanto os outros o não sabem e não o podem portanto destruir, nestes dias tão tão iguais, sou eu o guia e o inventor. Eu, o prudente pastor do meu rebanho. Eu, o chefe. Eu, o sábio. Eu, o Pai. É a Lei.

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E enquanto dormem a meu lado, eu olho-os e descrevo-os para os fazer mais meus, para que mos vejam como eu quero. Olho-os e estou vivo. A Irene, dormindo enleada em mim, quieta e entorpecida, a trança meio desfeita como uma auréola, quieta e estranha, sonha talvez. Quem pode saber o que sonham mulheres? Rodeados de sombras e cantos matinais da pardalada, folgando nas árvores da Avenida, chegamos lentamente a um novo dia. Os dois garotos, daqui a nada, vão crescer das roupas, desenroscar-se com olhos apatetados de sono. A Irene boceja, meio a dormir encosta o bico da mama à boquita do filho e dá-Ihe do seu sangue, um maná de ternura, e olha-o, e pensa. Quem poderá saber o que pensa uma mãe olhando o filho?

Tenho pena, ah como eu tenho pena!… dos que precisam de inventar coragem para um novo dia, certezas certezinhas, obediência a religião ou partido ou rotinas, de inventar-se comodidades necessidades ou ilusórias vaidades de levar melhor vidinha (ceguetas todos eles aos limites da humana criatura que é para todos e de repente o coveiro), razões para estar e lutar além destas, tão simples afinal e misteriosas sempre, tão naturais e primitivas: uma rapariga nossa que amamenta o filho, duas crianças que pedem pão e olham para ti.

Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.

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Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco, dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos frustrados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com o filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, Senhores, porque saúdo amanhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. E no riso do meu Paulocas uma leve ironia contente me desperta, babada em leite e ternura. Somos puros. Sabemos e cumprimos. Bem-aventurados somos e vós, também,

Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes.

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