Porque escrever?

Escreve-se não porque se pensa, não porque se atinge uma parte da verdade, mas porque se tem necessidade. Mas de quê? De registar? De comunicar?

O que há de mais incomunicável que pensamentos? E no entanto, ainda que quase todos eles comuns, vulgares, rasos, são-nos necessários, e não podemos tomá-los de empréstimo.

Às vezes o que há a dizer não é simplesmente o real. Não é a verdade. Como as tristes certezas de um velho infeliz demonstram. A isso chama-se silêncio. A palavra é primeiro um chamamento para a festa, comunhão, o que lhe quiserem chamar.

O que é que pode recuperar o valor da escrita, quando se deixa de acreditar na sua necessidade, mas permanece como impulso? Será a estética? Mas se a estética não é mais do que um adorno, longe do essencial?

Poderá ser o enunciar da verdade? Mas porque há-de o verdadeiro, se existir algo como isso, ser escrito mais do que falado? Pois falado, a maior parte das vezes, não o deve ser.

Poderá ser o anotar do pensamento? Mas se o pensamento é intransmissível, e fugaz, e evolutivo, ao ponto de ser de pouca utilidade o seu registo presente para um outro eu futuro?

Ou a escrita como uma sinceridade prostética, em que as palavras procuram um medium menos usual para se exibirem mais despidas, ou ensaiarem novas formas de se velar?

Escreve-se por vão desejo de imortalidade? Porque se sabe algo digno de ser escrito e de ser lido por outros?

Parece inútil, uma vez que o que tenho a dizer não é nada que já não tenha sido pensado e dito antes. Algures, num livro qualquer, se encontram algumas das minhas melhores intuições, e aí mesmo elas jazem inúteis, tão predispostas a serem ignoradas, mal entendidas ou tomadas como banalidades.

Penso que se escreve para procurar uma certa maneira de dizer as coisas. Se se atinge ou não é secundário face ao instinto de nomear o ignoto, e aí a caneta (a “pena”) e a sua lentidão, é apenas um auxiliar de estabilidade do pensamento/senciência.

Escreve-se para auscultar o ser através da linguagem, experimentando novas formas de ordenar o caos e de nos relacionarmos com o mundo. Talvez se escreva também como uma espécie de ensaio da fala, procurando intimidade com as palavras, algo como um bote para o dilúvio das linguagens.

Mas se escrevo para investigar, à minha maneira, a linguagem, movo-me no âmbito da comunicação, da vontade de dizer, de transmitir, fazer entender. E aí levanta-se sempre o problema de qual o melhor modo de dizer.

Qual a forma mais útil, ou eficaz, do escrito? Um discurso longuilíneo em que a exposição do sentido se disciplina à gramática, às regras da sintaxe e da semântica, ou um enunciar sumário, em pontos, se possível quase matemático, quiçá com umas imagens e uns desenhos a ilustrar?

Um discurso íntimo, pouco vigiado, pessoal, ou um discurso comunicativo, exteriorizado? Talvez este último, na ânsia de tudo comunicar, sacrifique o que é menos facilmente comunicável, e um discurso mais rarefeito e abstruso possa comunicar mais, embora com menos certezas, e para menos pessoas.

E o problema de o que dizer e o que calar.

Por vezes, escrever é somente um vício incorrigível.

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