O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (por Luiz Pacheco)

Capa da edição original, 1970. Texto escrito em 1961.

Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): “Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur (“O Enjeitadinho”? “O Corcundinha”?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: “Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada”. Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar… Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.

Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: “Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!”. Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a “Seara”. Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, “da maneira mais arbitrária…”, diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!… É para ver se perdem mais depressa, ah!… ah!… (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza – e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!

Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas – é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: “Eu sento-me já aqui”, e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso – ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultadodão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã… ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos. Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: “Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja…”. O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!

Meto a caminho de Somar. Saem-me à estrada duas bezerras, tasquinhando castanhas. Peço-lhes de que comer, mostra-me uma um naco de pão com carne ou presunto. “Que o reparta”, digo. Mas elas são duas toiras muito sabidas e não vão às primeiras com o meu ar tedibói pobretana. A de cá, da direita, é um belo pedaço de mulher, coxas reais, pernas, cabelos e cara, bicho para dar trabalho de cu-abaixo-cu-acima a um batalhão. Vão para um baile ou encontro furtivo. Que as fodam! Dou-me todo a pensar na minha Deolinda e aperto a bolota-talismã. Chego ao local onde a vira primeiro, de manhã, com uma casa afidalgada na curva da estrada e a azinhaga que enviesga para os campos, à direita. Farei referência pela igreja, já que o lugar de Assento é vizinho e depois bisbilhotarei pelos campos, usando o meu faro atiradiço. Onde estará agora a casta diva? Lá se vê a capela, e pergunto a quatro moçoilas onde é o lugar de Assento, “que é por ali”, respondem, “então sigam à minha frente que é para eu as ver melhor” , digo, a fingir de domador de potras vadias. Estas são mais novas que as duas de há bocado na estrada, aí entre os 15 ou os 18, mulherzinhas já, mas não fazem concorrência à Deolinda, ah! não, p.q. as pariu! Vão numa grande galhofa, e eu rio-me cá atrás, para saberem que lhes estou interessado nas falas. A que vai do meu lado, à esquerda da azinhaga, é uma loira espigadota, bonitota, provocante; é a que mais vezes se volta e encaro-a com o meu olhar mágico de duzentas megatoneladas e um riso de dizer (e o pior era o bafo, a mosto…) “anda cá, rapariga, estou cheio de tesão por ti, pois não vês?”. Vamos neste jogo modesto até ao lugar de Assento e eu já arranjei pretexto para andar por ali, com o meu traje um tanto invulgar: blusão de nylon preto, calças rotas no rabo, sapatos rotíssimos nas solas e sujos de poeira por cima, uma coisa entre o tedibói e o vagabundo, com a pêndula a dar neste quando melhor se reparasse que blusão, calças e sapatos, novos ou rotos, velhos ou rebrilhantes, não iam com o meu corpo por medida senão por força de hábito e contrariados. O pretexto é: que me disseram que a capela ou igreja é muito, muito antiga e tem muito que ver; faço-me de Raul Proença ou Torga, a coscuvilhar raridades perdidas na Província, preocupado com velharias e ossos, quando o que quero são caras e bocas e olhos e risos. E mãos e pernas. Tudo, etc., de mulheres. Dou com a capela aberta: fazem um baptizado. O padre tem cara de cabra doente. Puta que o pariu mais ao pai da criança (que, depois, vim a sabê-lo, está em Angola-é-Nossa. Boa ocasião de conhecer melhor a mãe do neófito, para compensá-la do patriotismo do marido). As raparigas sentaram-se numa pedra e faço o mesmo, mesmo ao pé delas. Então entro em palestra, que toma logo um caminho picante: se a igreja é muito antiga, se elas são solteiras, se moram por ali, se há na casa da loirita um quarto a mais ou uma cama (abespinha-se: “isso num chei!”) e mais isto e aquilo. Não dão muito pela minha curiosidade arqueológica e não sabem bem a qual delas me atiro ou que faço ali. Duas saem aos saltos, à outra peço-lhe tremoços que mos atira, caem no chão, pede desculpa, dá-me mais na mãozinha, pergunto se não há vinho para os forasteiros. Estou nisto e sai da porta, mesmo ao pé da igreja, a Lindita, a minha Lolita, a Super-Geninha. A bolota-talismã não me desenganou. Sai a correr, leva um cântaro e desaparece numa azinhaga. (A esta maravilha perco-a sempre por azinhagas). Estou em ir ou não ir atrás dela, mas disfarço o jogo, por causa das quatro sabichonas e também porque ela, tendo-me visto, não deu mostras de me reconhecer. O que me parece pouco natural, dado o meu blusão negro, característico, os óculos, a cara espantada, as calças todas amachucadas. Vira-me ainda não há umas 5 horas. Falara com ela duas vezes. Rondara-a com os olhos. Mas talvez não desse à minha ida ali qualquer significado especial, talvez não me topasse por eu estar a pôr-lhe os cornos com as outras, qualquer delas me servia para abrir o meu apetite da Super-Geninha, se isso fosse preciso. Mas o foder dá a vontade do foder (mais). Reparou em mim? não reparou? Daí a nada voltava a correr, sem o cântaro, e olhou-me como da primeira vez e eu olhei-a, com naturalidade. As quatro sabichonas não deram por nada. Entretanto, tinham-se ido sentar mais adiante e eu dei-lhes sopa, porque não aturo más-criações (mesmo fingidas e provocadoras) e agora que já vira a Super-Lolita-Super-Geninha não me calhava estar a namorar com elas. Vou-me para a capela, na minha nova pele de arqueólogo amador, neo-Proença. Surge o sacristão, que olhou para a blusa nova e não reparou nas calças esfiampadas, rotas e cosidas no cu. Óptimo. Falo para o futuro (dele): que quero tirar umas fotos àquela igreja tão antiga (muito, muito, diz-me o tipo a impingir-me a mercadoria), vejo uns baixos-relevos muito antigos (?) e muito toscos também, entro na capela, bisbilhoto tudo. O baptizo já acabou, e estão agora todos cá fora a conversar. Falo ao tipo na minha reportagem, em fotos – ele aí atrapalhou-me porque está um tipo precisamente cá fora a tirar fotografias ao bebé ranhoso e ao padre cara-de-cabra-doente, mas digo que a minha máquina é melhor, é minha. (Não tenho máquina nenhuma).

O tipo concorda, está à espera duma gorja bestial mas eu lanço-o no caminho das grandes esperanças (no futuro). Falo da Fundação Gulbenkian, de milhões, de petróleo. Sou agora repórter da Fundação, faço de Santana Dionísio. Logo a seguir tomo nota do nome e morada do cavalheiro a aprazar vinda próxima, pois é nesta terra que me sinto bem. Entretanto, catrapisco ao longe a Super, que está numa bela pose inclinada a ver o grupo a tirar poses e mais poses para mandar ao pai da criança. Se a pudesse engatar! Vou atrás daquelas bestas, sempre metendo fantasias na pinha do sacristão, que é um espertalhão-estúpido, típico maloio de Braga. E vou-me. Marcho para Braga, está a fazer-se tarde e faz frio. Gasto a última coroa para a caixinha da rapariguita que me guardou a bagagem. Visto o casaco e vou ao ataque da Pensão Oliveira, onde há que fazer meter na pinha do hospedeiro que sou um velho e fiel cliente da casa. Havia nesta pensão duas velhotas Antigo Regime, uma sala de cortinados com um piano e duas maganas que tinham (uma delas) bigodaça loira. Tá tudo mudado: bar americano, tasco infame, forno de assar frangos. “As velhas morreram, para dar lugar à gente, antão?!”, diz-me a filha do dono. Este leva-me ao meu antigo quarto no 2º andar, pergunto pelo piano, ainda lá está porque não há quem o queira. E na antiga cozinha é agora um quarto para noivos ou casais que façam muito uso de água, porque tem chuveiro e bidé sanitas anexo. Um regalo para encontros furtivos. Aqui a luxúria envolveu-se no campo perigoso da política, ah! ah! Bebo mais um copo, que me dá uma grande volta às tripas.

Tenho de ir para o jardim passear, com vómitos embrulhados na língua. Aguento. Jantar. Dois moços de fidalgas famílias ou de massa? são estúpidos mas gulosos de mulheres. Meto conversa. Pergunto como é isto aqui de putas em Braga. Faço-lhes um sinalzinho com o dedo indicador em curva para virem até à minha mesa e levo o assunto para o minete, reforçado depois com o biminete. Dizem que há aqui o 28, que tem uma (pelo menos) gaja boa. Pergunto se já fizeram ou viram fazer minete. Explico-lhes o biminete. Pretendo com isto uma bacanal a cinco, que eles pagariam para me ver e foder as miúdas. Ficaram chocados com a minha declaração de que o foder já não se usa, cansa muito e eu tenho tesão, mas não fodo. São eles que terão de foder as mulheres. Não percebo bem se estão espantados, irritados ou entusiasmados. Querem ir ao 28 mas digo que depois de jantar, nada. Mais tarde. Eles então vão para o cinema e eu fico de ir esperá-Ios à porta. Saem jurando vingança! Cravo um maço de Paris ao balcão e fósforos. E perco-me pouco depois a explicar a um melro que o Totobola não prejudica isto da lotaria porque o lucro vai para a mesmíssima sereníssima beatíssima Misericórdia. Depois aparece um velho ginja que é monárquico, um tipo assanhado com um olho com um grande penso branco e um cabo ou sargento (não entendo de divisas) que vai para Angola e diz que um rei alemão, que nem sabe falar português, não lhe serve. Grande barafunda, berraria, copos, risadas. Eu vou de grupo a grupo, dou razão ao que está mais perto, digo ao sargento que o ginja pode ser um agente da Pide e provocador, o do olho entrapado diz que ele é um caixeirote, que nem fidalgo é, etc. O sargento diz que ele é que é da Pide, que pode até mostrar o cartão, que o monárquico é um mentiroso. Nessa altura levo os dois republicanos ao meu quarto (o monárquico acabara de revelar a sua isenção cívica, declarando que tirava o chapéu à bandeira verde-vermelha, porque era a bandeira da Pátria, a Nação em forma de trapo, e que isso da bandeira azul-e-branca era uma história). Percebo que é um monárquico convicto, mas desiludido: está-se cagando para o D. Duarte Nuno, e diz apenas que há-de morrer assim, já que sempre foi monárquico.

No meu quarto dou ao sorja o Depoimento duma Angolana. Ele começa a ler em voz alta. Lê bem, mesmo as gralhas. O tipo do olho branco começa a ficar branco pró resto da cara. Abre a porta o dono da pensão (diz) porque viu luz. Suporia panascaria? Fecho a porta, à chave, depois de o ter tranquilizado que era tudo gente de bem. Discussão atrapalhada ou trapalhona sobre Angola-é-Nossa, pretos maus e brancos bons e vice-versa, com o sorja. O do olho tapado diz que tem gente à espera e desaparece. A discussão com o sorja nunca se azeda: ele diz que sempre é bom um tipo estar informado, eu digo-lhe que ele me pode prender ou mandar prender, mas que é o meu dever (tirada de editor patriota), ele tem medo de deixar as impressões digitais no papel, eu digo-lhe que a autora (branca, note, branca, e filha de brancos e casada com um branco) já foi chamada à Pide, ele suporá agora que sou eu da Pide, estamos os dois bêbados e taralhoucos, acaba por jurar que pode morrer mas aquilo é nosso e foi nosso, sim, que há uma razão para se defender, e que pensa que há-de ter a sorte de matar ao menos um preto antes de o matarem a ele, e pira-se, clamando mortes e glórias. É um doido.

Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma miúda ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um marçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.

Até aqui, tudo muito bragal. Mas está-me a apetecer agora abjecção; saí da porta do cinema chateado com a demora dos rapazinhos, até porque não sabia se teriam ido ao Teatro Circo se ao Geraldo, onde também havia sessão. E aconteceu então o inesperado: tudo aliás muito naturalmente encadeado.

Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do Mundo! Venho diante do café das Arcadas e de repente noto a meu lado um magala, de passo a par do meu. Olho-o uma vez e ele olha-me; olho-o segunda vez e ele volta a encarar comigo. Silêncio. Puxo do tabaco e ofereço-lhe: ele pára, pega no cigarro, dou-lhe lume, acende o meu, seguimos lado a lado. Entabula-se a conversa: trato-o logo por tu, mas sem superioridade, singelamente, como um velho camarada. Tem bom tipo: cara magra, olhar triste, rosto varonil e um pouco fatigado. Não é bonito, mas também não é boçal nem repelente. Magro de corpo, altura média. Um tipo calmo. Sei-Ihe a história num quarteirão de casas. Não é daqui, mas de Vila Franca de Xira ou perto, tem família em Lisboa, tios e tias, está danado de estar aqui (há dois meses), já emagreceu, por causa da comida; e mulheres, nada ou quase nada, não se safa: o tal 28 é a trinta paus cada virada, onde terá ele massa para isso com o pré da tropa (uns tostões, coisa que nem chega a 5 coroas). Segue amanhã às 3 para Lisboa, vai levado para a Amadora (?) fazer um treino e lá para o fim do ano, ala para Angola-é-Nossa. Parece que é mecânico ou coisa assim. A meio do cigarro apaga-o, para guardar a beata para o dia seguinte. Desconvenço-o. Acendo-lha outra vez e dou-lhe mais dois cigarros, que ele guarda um pouco avidamente na bolsa. Vamos conversando como dois velhos amigos, de repente eu olho-o muito a direito na cara, admiro-lhe o rosto. Ele já deve estar convencido que eu sou um paneleiro rico e tem a noite safa. Mas a conversa mantém-se sempre num plano de grande dignidade: malvadez da comida nos quartéis, carestia das putas, política no Ultramar (restos da minha discussão com o sargento), guerra em Angola-é-Nossa. Não é um herói, tudo isso o entristece muito, mas sem emoção. Lamenta-se mas não choraminga. A nossa conversa tem por vezes longos silêncios de metros. Vamos agora na estrada que conduz ao quartel: é aquelas duas luzes lá ao fundo; digo que sei mas não distingo senão manchas esborradas de luz, que podem ser os candeeiros da estrada. Passam por nós, em andar cadenciado de marcha, um rancho de taratas, à pressa de chegarem ao quartel antes da meia-noite. Olham o par arrebenta mas não têm uma palavra. Dum primeiro andar umas raparigolas dão uns risinhos e dizem uns dichotes.

– Estão a meter-se comigo – diz o meu companheiro cheio de calma. Voltamos a ficar sós na estrada. Parece-me que já consigo agora distinguir as tais duas luzes do quartel. Devo-lhe uma explicação.

– Gostas de broche? – pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural.

– An, nem por isso – responde sempre calmo.

– Pois é só o que eu te posso fazer – digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian.

– E quanto me dá? – pergunta desagradável feita em tom meramente comercial.

– Olha, não te posso dar nada – diz o falso Calouste – dava-te se tivesse, mas estou tesíssimo, não tenho um tostão,já o tabaco foi fiado na pensão, só amanhã é que recebo um vale de Lisboa, amanhã às duas e meia.

– ‘tão, nada feito – diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me pareee que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde a sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.

– Se tivesse dava-te, já te disse.

Acreditou? não acreditou? O meu blusão rico de nylon, a minha barba mal feita, toda a nossa conversa, deram-lhe algum entendimento de mim?

– Ao menos, qualquer coisa para um maço de tabaco.

– Já te disse que não tenho um tostão Mas se queres tabaco, vens comigo à pensão e eu cravo lá um maço e bebes um copo ou uma cerveja. É fiado.

Paramos os dois na estrada. Aí – tenho a certeza – um pouco de insistência minha, qualquer promessa, fariam voltá-lo para trás. Mas não fiz nada disso; devo ter-lhe parecido um velho forreta, gabiru em chupar caralhos de borla. Resistiu.

– Só por isso não vale a pena, não interessa.

– Tens pouco tempo, não é?

– Não, posso recolher até à uma e mesmo ficar a noite fora. Mas não vale a pena – diz o ribatejano – é longe…

– Não sei – digo eu, quase no mesmo jogo, muito diplomata.

Voltamos a caminhar lado a lado. Calados.

– Vou ali fazer uma mija – diz o gajo.

– Vê lá se te vêem. Aqui há casas.

– Não faz mal, há aqui um sítio.

Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.

– É pena não ter dinheiro, aqui era um bom sítio.

– O senhor tem, há bocado disse que tinha – diz o franjolas a mijar à minha frente (e nem para a picha lhe olhei).

– Não tenho, já te disse que não tenho um tostão.

Sacudiu a gaita, voltámos à estrada.

– Ao menos, podia-me dar esse maço que tem aí…

– Toma.

E dou-lho, puxando um cigarro:

-Tiro este para mim.

Andamos, paramos. Estudamo-nos?

– Se quiseres aparecer, estou na Pensão Oliveira.

– Onde é que é isso ?

– Ali ao pé da Polícia de Trânsito, no Campo da Vinha, mesmo defronte.

– Ao pé do posto da Polícia?

– Sim.

– Então ficamos assim: amanhã das nove às nove e meia estou lá, perto do posto da Polícia.

-Tá bem.

Dou-lhe um aperto de mão.

– Como te chamas?

– António.

– E eu Luiz.

– Até amanhã, então.

– Até amanhã.

Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a Pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?

Pergunto:

– Que tal esse cinema?

– Não foi mau – respondeu com ar de zangado.

Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água de Castelo? Fumo? Peço mais fiados? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense.

Quando andava a passear à tarde fui ao Campo da Vinha. 3 autocarros da Viação Courense (? Paredes de Coura ?). Farejei minhotas. Dentro, maioria de velhas e velhos, gente cansada, garotos com sono. Duas ou três mulheres cantam, um velhadas bate palmas a compasso. O problema estava em que duas das viandantes tinham cá os namorados e andam à solta. A chefa da excursão está arreliada e diz-lhe um home:

– Nós agora tínhamos o direito dirmos embora e deixá-las acá.

Mas a chefa tem as suas responsabilidades. Eu giro à roda daquelas caixas de gente envidraçada, olho uns, olho outros cá debaixo. Elas cantam. Há uma mulheraça à janela, que quer entusiasmar a malta. Canta. Parece a minha Rosinha (Rosa da Costa Vaz, de Viana, Santa Marta de Portuzelo ), mais velha, mais fodida. Canta bem. Eu acabo por ficar fixado na janela dela. Olho debaixo. Não me apetece como mulher fito-a como fantasma. E eu próprio sou um fantasma do que era há cinco anos ou seis quando aqui estive com a Rosinha – Rosa da Costa Vaz que foste, minha mulher (que não foi) minhota. Como eu a amei! Chegam as transviadas. Vêm refilonas, suadas, queriam mais foda. Barafustam com a chefa, a chefa barafusta com elas. Os carros começam a andar. Eu estou especado outra vez debaixo da janela da mulheraça (Rosinha, Rosinha, onde estarás?).

E esta que fingiu nunca dar por mim, quando o carro arranca e me deixa esquecido, diz:

– Adeus, meu senhor .

Como quem diz: estavas aí e me viste e me desejaste, e quiseste o meu cono, e fui tua. Nunca mais me verás, fantasma de blusão negro e óculos grossos cara aparvalhada, fica-te, tarrenego!, sei lá quem tu és – não sou para ti.

E eu que era para ela. Outra qualquer. Dentro e fora da memória, fantasma para fantasmas.Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 6 ou 5 horas, há um grupo na Pensão que se está a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo.

Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.

Como a Natureza previu todas as nossas fraquezas e ausências, dotou-nos também com outro caralho para o cu detrás. Meto o dedo (médio?) todo no cu, bato a punheta. E a ejaculação, forte porque há dias que estou sem deitar nada cá para fora, dá-me contracções no esfincter. Gozozíssimas. Venho-me imenso. Estou cada vez mais excitado. Cada passo na escada parece julgo que é o António que vem e me penetra e me obriga a chupar-lhe o delicioso caralho que não vi. Escândalo. Tribunal Militar.Vergonha. Filhos a saberem tudo. Loucura. Suicídio. Tomo meio Calmax. A pouco e pouco a corda vai-se aligeirando, estou melhor. Mas que vontade de ter pecado. De pecar. Como assim: de viver.
Descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cima, o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridão, loucura. Mas o que toma tudo igual é que ambas as cadeias se encontram, nada a fazer, meus caros, daqui a cem anos ninguém se lembra.

E a nossa lição-abjecção a quem aproveitará?

Já tanto faz.

Tanto nos faz.

Braga, 16 ou 17 de Outubro, 1961.

(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?

(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.

(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!

(Texto retirado de http://triplov.com/luiz_pacheco/braga_01.html. o melhor site (portal) sobre o luiz pacheco que anda por aí é provalvelmente este: luizpacheco.no.sapo.pt/. Claro que era desnecessário este texto estar aqui se já se encontrava noutro lado; mas eu faço questão!)

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