Pingo Doce, 1984

Fantasia negra baseada em “1984″ de Georges Orwell e observações do quotidiano.

 

Ao sair do supermercado naquela tarde de final de Outono, L. sentia um indiscutível júbilo. Afinal, pudera poupar em bacalhau e fraldas o suficiente, talvez, para comprar um brinquedo dos anunciados na televisão para o seu filho mais velho. Talvez, porque embora o dinheiro que poupara tivesse que ser gasto e portanto tinha que existir, agora que não tinha sido gasto era menos provável que chegasse a existir. Mas o júbilo que sentia, esse, era incontestável, inclusivamente lhe alterara a frequência das ondas cerebrais e fazia as glândulas salivares segregarem uma substância que pouco a pouco lhe ia apodrecendo os dentes.

Era todo sorrisos ao atravessar a rua de saco reutilizável na mão em direção à paragem de autocarros. Pelo caminho cruzou-se com M., que esfregava o frio das mãos nos bolsos e matutava pensamentos inquietos, mais uma vez, esse final de tarde também.

“Tenho tudo para ser feliz. Ganho o suficiente para alimentar a minha família e comprar algumas prendas de Natal. Em dias de semana, todos eles, como gramam a lasagna de 1 kg a 2,50€, se enchafurdam com ela e posso passar no bar e pedir uma cerveja. A moça é gira, se não um pouco tonta, excessivamente nova mas pelo menos suficientemente nova para não aliar à despersonalização o gasto e a desvalorização”. Mas estava também ele a pensar em termos mercantis de lucro e dispêndio, e por isso tentou afastar da cabeça a imagem da jovem tiradora de finos.

“Há algo de podre no ar. As pessoas que se vêem na rua deixaram de poder distinguir-se em termos de riqueza do vestuário, usam todos as mesmas cores e o cheiro que deles emana é parecido. É certo que andam felizes, com o bacalhauzinho demolhado em promoção à quarta feira, e a batatinha e o leite em preços baixos toda a semana. Mas é precisamente isso que me preocupa, toda esta satisfação da parte de gente que vive na miséria e é diariamente brutalizada pelos patrões, pela polícia, ou até mesmo pelos anciãos da família”.

Pensando isto, espantou-se consigo mesmo, e instintivamente virou-se para o vidro da cafetaria tentando ver o seu reflexo de mãos espalmadas uma em cada face. Tinha um ar doentio, isso era óbvio. Mas poderiam notar que o seu cansaço de viver lhe vinha das ideias inconformes e das noites mal dormidas, inquieto com medo de ser descoberto? O seu ar contrastava notoriamente com a felicidade despersonalizada das pessoas que, como hipnotizadas, passeavam com os olhos algo vítreos e desfocados. Pareciam embaladas num sonho de que despertavam com um “plim”, não para acordar, mas para passar de uma face à outra de um sonho acordado. Quando caminhavam sós, sem falar com ninguém, pareciam nada ver nem ninguém, e desviar-se das pessoas e objectos apenas por instinto ou alguma espécie de radar. Nas suas cabeças, M. sabia-o, repetia-se quase incessantemente aquela canção que os motivava, lhes invigorava de força os músculos pela manhã, lhes transformava à noite o cansaço em pacífico descanso e doce abandono.

Por isso não viam em M. quaisquer sinais de que ele pensasse fora da medida comum. Ao encontrar na rua a sua figura depressiva, não a reconheciam como humana, e tanto mais depressa se afastavam, por vezes com afoito, como fariam perante um cão raivoso.

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