Ser ou não ser: David Hume

“A intensa visão dessas múltiplas contradições e imperfeições na razão humana influenciou-me de tal modo, e aqueceu o meu cérebro, que estou preparado para rejeitar toda a crença e raciocínio, e não posso considerar nenhuma opinião como sendo mais mais provável ou plausível do que qualquer outra. Onde estou, ou o que sou? De que causas eu derivo a minha existência, e a que condição retornarei? O favor de quem devo cortejar, ou a cólera de quem devo temer? Que seres me cercam? E sobre quem tenho alguma influência, ou quem tem alguma influência sobre mim? Estou perplexo com todas estas questões, e começo a me imaginar na condição mais deplorável que se pode imaginar, cercado pela mais profunda escuridão e privado ao extremo do uso de cada membro e faculdade.

Acontece por muita sorte que, como a razão é incapaz de dispersar essas nuvens, a própria natureza basta para esse propósito e me cura desse delírio e melancolia filosófica, relaxando essa disposição de espírito ou com alguma distracção, e a vívida impressão dos meus sentidos, que obliteram todas essas quimeras. Eu janto, eu jogo uma partida de gamão, eu converso e divirto-me com os meus amigos; e quando, após três ou quatro horas de diversão, retorno a essas especulações, elas parecem tão frias, e forçadas, e ridículas, que não consigo ter coragem para entrar um pouco mais nelas.”

David HumeTratado da Natureza Humana (1740), livro I, parte IV, secção 7.

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