Elogio do plágio

“O plágio é necessário. A ideia de progresso implica-o. Ele cerca de perto a frase de um autor, serve-se das suas expressões, elimina uma ideia falsa, substitui-a pela ideia correcta” (Isidore Ducasse, Poésies, II-60).

Hum, quando penso que se eu disser uma verdade que alguém já pensou e escreveu antes me chamam mentiroso em vez de me escutarem…

A ideia de plágio é uma impossibilidade lógica. Tudo bem que a linguagem é criativa e as suas combinações virtualmente infinitas, mas se eu disser “qualquer coisa” tenho que acrescentar Shakespeare, William, Twelfth Night: Or, What You Will, 5º acto 1ª cena? A infinitude das possibilidades da linguagem significa que é sempre possível formar combinações novas, não que a formação de uma combinação já utilizada anteriormente não seja original e seja um plágio. Eu disse certo dia a certa hora “…”. Mais tarde perguntei-me, mas onde é que eu já ouvi isto? Parei, pensei, e concluí que ouvi esse dito a certa hora em certo lugar, por palavras ligeiramente diferentes, e admirei a espirituosidade dessa frase. E um dia, usando essa vaga lembrança como uma muleta da minha criatividade, disse exactamente o mesmo a pensar que estava a criar uma frase minha. Copiei? Não, sobretudo tomei consciência de uma verdade, a de que … , e fui capaz de a restituir no meu espírito. Suponhamos agora que a frase … vai sendo repetida aqui e ali e entra no domínio público. É uma frase famosa, cheia de graça e lucidez. Torna-se um provérbio. Ficará na sabedoria popular ou será erroneamente atribuída a uma figura marcante da nossa contemporaneidade, tipo um Barack Obama ou um Winston Churchill, dizendo-se por vezes antes de citar o nome do génio, “atribuída a…”.

Não. O “só sei que nada sei” não foi Sócrates que disse. Foi o homem da mercearia que resmungou dos seus azeites. Sócrates só acrescentou um ponto. Mas o ridículo é toda a investigação académica que se faz, cuidadosamente a tentar evitar dizer o que os outros já disseram, a ler quilómetros de páginas antes de poder sequer abrir a boca. Como se uma verdade que seja verdadeira não mereça ser repetida. Como se nunca tivesse sido descoberta uma ideia boa pelo pensamento humano. Como se alguma ideia boa alguma vez pensada pelo pensamento humano seja propriedade desse homem que a pensou, e com a sua morte devam os restantes mortais invocar o seu nome ou confinar-se às trevas da ignorância, como se tudo ao fim e ao cabo na vida que vale a pena ser dito não sejam só duas ou três coisas. Como se o vento, cujos lamentos sibilantes entristecem a humanidade, não a entristeça desde que existem vento e humanidade.

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