A conquista da ubiquidade

“Tal como a água, o gás e a energia eléctrica, vindos longe através de um gesto quase imperceptível, chegam a nossas casas para nos servir, assim também teremos ao nosso dispor imagens ou sucessões de sons que surgem por um pequeno gesto, quase um sinal, para depois, do mesmo modo nos abandonarem.”

Paul Valéry, “A Conquista da Ubiquidade” (1928), em Pieces sur l’art.

Publicado em pensamentos | Etiquetas , , , | Deixe o seu comentário

Etnocentrismo

ED VAN DER ELSKEN

Foto: Ed van der Elsken.

Mohawk_Hollywood_Blvda

Hollywood Boulevard, L.A, 1977. Foto: Ann Summa.

Publicado em fotografia | Etiquetas , | Deixe o seu comentário

O verdadeiro significado de «arrogância»

Ok, admito que o título é algo sensacionalista. Não tenho nenhuma perspetiva especialmente iluminada sobre o tema, mas fiz uma pesquisa e refleti um bocadinho sobre a coisa.

O termo “arrogância”, tal como é usado no quotidiano, tem uma conotação negativa. Isso é um facto. A questão é a de saber se pode conter em si também um sentido positivo. Dizia o Diogo mais ou menos assim, a arrogância é necessária a todo o artista, que precisa afirmar o seu valor perante a indiferença do mundo. Será arrogância o termo mais adequado aqui?

Etimologicamente, arrogância tem uma origem jurídica. Ad rogare, em latim, parece indicar a reivindicação e apropriação de algo a que se julga ter direito. Significa então o acto de reclamar para si, tomar posse, correspondendo a um gesto de liberdade e insubmissão. O artista precisa libertar-se das pressões mundanas, e colocar a sua obra no mundo num acto afirmativo de insubmissão.

Todavia, arrogante, no sentido comum, é a pessoa que afirma uma superioridade que não possui realmente, ou toma para si (arroga-se) aquilo que só discutivelmente tem  direito. Essa é somente uma das possibilidades do ab rogare, mas foi aquela que, por corrupção do uso, permaneceu no léxico, formando-se de modo similar ao que a auctoritas dá não só autoridade mas também autoritarismo, quando a autoridade é meramente suposta e forçada.

Assim, a arrogância pode ser legítima quando corresponde à reivindicação de algo a que a pessoa tem direito, ou quando, no exemplo do artista, ele tem verdadeiramente o valor que julga ter, mas é um vício quando se a sua concepção de si mesmo e da sua obra não corresponder à realidade, sendo apenas uma pretensão de superioridade sobre os outros. Aí será «arrogante» no sentido comum da palavra, isto é, presunçoso.

Note-se que que, para o Cristianismo, um dos pecados capitais é a «soberba» (superbia), isto é, a pretensa superioridade sobre os demais, e não o «orgulho» ou a «arrogância», e podemos dizer que corresponde à arrogância ilegítima. Também a humildade excessiva pode ser entendida como uma forma de soberba, quando o indivíduo, não conseguindo aceitar ser mediano, afirma ser o pior para se destacar ou receber comentários consolatórios.

O artista, enquanto criador de uma obra original e que por isso choca com os valores estabelecidos, precisa libertar-se dessas amarras e afirmar a sua diferença e originalidade, e arrogar-se um estatuto de diferença (senão de superioridade, pois o facto de se ser um excelente músico, ou pintor, ou o que for, não faz de nós seres humanos, de uma forma geral, superiores aos outros).

E para finalizar, algumas palavras acertadas retiradas de outro blog, e da autoria de Alexandre Brandão da Veiga:

“Alguém que demarca as suas terras apenas para exercer os seus direitos pode não ser paradigma do absoluto cristão, mas está no seu direito. Sem mais não pode ser condenado por isso. Sejam as suas terras um minifúndio ou um império.

É evidente que a arrogância desagrada aos outros. Sobretudo quando é legítima. A ilegítima suscita o ridículo, a revolta, mas não tanto do desagrado. É evidente que Carlos Magno era desagradável para o rei dos Lombardos. Alexandre foi agastante para os seus generais. Beethoven desagradou a muitos. E Mozart estava longe de ser um santo para com quem o rodeava. Para já não falar desses grandes arrogantes que eram Churchill e De Gaulle, que tanto irritaram medíocres que os rodeavam.

A arrogância legítima é até a que deixa mais dor em quem a circunda. Não apenas ser pequeno, mas ter a nossa pequenez lembrada por terceiros, é doloroso. Mas essa dor diz mais sobre a pequenez de quem a sente que sobre a ilegitimidade de quem a provoca.

O problema da nossa época é o de não cultivar o sentido da propriedade, a noção da correcção da linguagem. As palavras são usadas debalde. Alguém as larga fora do campo adequado e todos as usam.

A demonstração negativa levou-nos tempo, mas foi necessária. Tantos usam incorrectamente a palavra “arrogância” que se tornou evidente que é dela que se trata. Mas existe arrogância legítima, já o vimos. E a arrogância tem cura, nem que seja pela sua satisfação.

Não é de arrogância que se trata, mas de grosseria. A grosseria está nos genes, cultiva-se em família, aperfeiçoa-se com o convívio. Passando o paradoxo: o grosseiro afina-se. Julga-se determinado e é apenas impulsivo, julga-se interveniente mas apenas o marca a inconveniência. Que as pessoas andem agastadas com a arrogância não percebo. Que a grosseria as repugne só aplaudo. Desde que não padeçam do mesmo vício.”

Publicado em pensamentos | Etiquetas | Deixe o seu comentário

Dance to the blues

640px-BuddyMossGreeneCountyConvictCamp

Publicado em fotografia, música | Etiquetas | Deixe o seu comentário

Novos aforismos de Dimíter Ánguelov

Nota prévia: a abundância de textos deste autor neste blog não pretende levar a que as pessoas não comprem os seus livros, antes pelo contrário, pretende ajudar muito modestamente a divulgar um autor de língua portuguesa que merece ser melhor conhecido. Os seguintes aforismos foram retirados do mais recente “In Vano Veritas”, 2014, tiragem limitada de 100 exemplares. A livraria Letra Livre, em Lisboa, que enviou o meu exemplar por correio, ainda tem pelo menos um.

Dimiter

* Há movimentos de alma tão lentos ou tão rápidos que muitas vezes é impossível saber se são nossos ou alheios.

* A iluminação não é um objectivo mas uma irreversibilidade.

* A expansão do nada criou muitas teorias de embalagem. Do nada.

* À liberdade só se pode chegar livremente e não conquistá-la pela razão.

* Muitos preferem a estupidez séria à brincadeira inteligente.

* Comunicamos graças à imprecisão dos significados e dos sentidos.

* É mais difícil, para uma pessoa só, defender-se da banalidade do que converter os infiéis.

* Eles não se amavam mas eram felizes porque amavam os mesmos santos e as mesmas santas.

* Gosta-se do corpo. Ama-se a alma. Admira-se o espírito.

* A vida faz mal à saúde.

* Não devemos espantar-nos com a estupidez – podem tomar-nos por pouco inteligentes.

* Não há língua mais bonita do que a portuguesa quando falamos em mente e tão-só perante ouvintes imaginários.

* Os aforismos são como pedras preciosas – mesmo quando se partem não é de qualquer maneira. Partem-se em pedaços preciosos.

* Para se sobreviver é preciso amar uma pessoa, uma árvore, um animal, uma pedra, um vício. Porque amar a vida é um vício incorrigível.

Publicado em aforismos | Etiquetas , , | Deixe o seu comentário

Poema Zen

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

Publicado em aforismos | Etiquetas | 4 Comentários

“Não posso adiar o amor…”

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

 
António Ramos Rosa em “Viagem Através de uma Nebulosa” (1958)

Publicado em poesia | Etiquetas , | Deixe o seu comentário