Dance to the blues

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Oração mágica finlandesa para estancar o sangue das feridas

Pára, sangue, de correr,bebedor
de ressaltar aos borbotões
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude,
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurando nas artérias
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos.

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Novos aforismos de Dimíter Ánguelov

Nota prévia: a abundância de textos deste autor neste blog não pretende levar a que as pessoas não comprem os seus livros, antes pelo contrário, pretende ajudar muito modestamente a divulgar um autor de língua portuguesa que merece ser melhor conhecido. Os seguintes aforismos foram retirados do mais recente “In Vano Veritas”, 2014, tiragem limitada de 100 exemplares. A livraria Letra Livre, em Lisboa, que enviou o meu exemplar por correio, ainda tem pelo menos um.

Dimiter

* Há movimentos de alma tão lentos ou tão rápidos que muitas vezes é impossível saber se são nossos ou alheios.

* A iluminação não é um objectivo mas uma irreversibilidade.

* A expansão do nada criou muitas teorias de embalagem. Do nada.

* À liberdade só se pode chegar livremente e não conquistá-la pela razão.

* Muitos preferem a estupidez séria à brincadeira inteligente.

* Comunicamos graças à imprecisão dos significados e dos sentidos.

* É mais difícil, para uma pessoa só, defender-se da banalidade do que converter os infiéis.

* Eles não se amavam mas eram felizes porque amavam os mesmos santos e as mesmas santas.

* Gosta-se do corpo. Ama-se a alma. Admira-se o espírito.

* A vida faz mal à saúde.

* Não devemos espantar-nos com a estupidez – podem tomar-nos por pouco inteligentes.

* Não há língua mais bonita do que a portuguesa quando falamos em mente e tão-só perante ouvintes imaginários.

* Os aforismos são como pedras preciosas – mesmo quando se partem não é de qualquer maneira. Partem-se em pedaços preciosos.

* Para se sobreviver é preciso amar uma pessoa, uma árvore, um animal, uma pedra, um vício. Porque amar a vida é um vício incorrigível.

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Poema Zen

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

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“Não posso adiar o amor…”

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

 
António Ramos Rosa em “Viagem Através de uma Nebulosa” (1958)

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Poema para SMS

O teu pénis
é o rouxinol
que canta
e adeja
nas minhas mãos
em mim
e que posso beijar

(o meu conto favorito do Decameron é o V, 4)

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Adília Lopes, “Louvor de Andersen e de Boccacci”

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Comprimidos literários

Manter ao alcance e à vista das crianças e adultos

COMPRIMIDO I
O Homem que caçou a deusa
Levou a arma à cara. Cano virado para o céu, um tiro. A criatura, cega ao rumo que levava, caiu. – Busca, Flecha! – ordenou o caçador. A perdigueira, a abanar o rabo, fez-se ao monte. Breve regresso: na boca, Diana, morna ainda.

COMPRIMIDO II
O homem que se abotoou com umas massas
Com evidente embaraço, a dona da loja lamentava não poder satisfazer as exigências do
encapuzado. Carolino, agulha, extra, arroz não tinha. Mão na máquina registadora, insinuou alternativa: talvez massas, umas massas. Ladrão romântico, o assaltante guardou o revólver e, contrafeito, saiu com uma embalagem de aletria na mão e dois pacotes de estrelinha no bolso.

COMPRIMIDO III
O homem que interpreta os campos
Quem olhar os campos em atento devagar, não lhes adivinha o futuro líquido, feitos vinho,
aguardente, jeropiga, espumante, rum. E, dentro da paisagem embriagada, quem como ele capaz de prever, no sonâmbulo podador, a figura turva que derreia agora a cabeça na mesa do tasco, pagando enfim o tributo à terra?

COMPRIMIDO IV
O homem que cortava a direito Os amigos recordam-no, saudosos, como um homem recto, cidadão que, face a contrariedades, não perdoava: se os calos o magoavam, vik!; se lhe doíam os dentes, vuk! A última vez que foi visto queixara-se de uma leve dor
de cabeça.

COMPRIMIDO V
O homem que morre ao anoitecer
Natureza assumida no seu esplendor, cada momento elo de uma infinda relação, nele a
morte é realidade vivenciada dia a dia, mortalha em que se deita e acorda, de manhã. O caixão comprou-o já faz anos e aí adormece sem sobressaltos, para nada estranhar, chegada a hora. A mulher acha bem. Tanto mais que passou a poder dormir sossegada, ele toda a noite sepultado no esquife. A ressonar.

COMPRIMIDO VI
O homem que arrombou a livraria
O assalto à livraria consumou-se com o roubo de um livro, de um só livro, acontecimento
tão insólito que o país se intrigou deveras. Os jornais, as rádios e as televisões não falavam
de outra coisa. Para desvendar o mistério foi destacado um polícia muito arguto,
que recolheu provas, fez as análises do costume e tudo o mais que estas coisas reclamam.
E quando o caso parecia sem saída, o perito formulou a pergunta essencial: a quem aproveitaria tal crime, que bolsos inchariam com tanto falatório? Bom de ver: o autor do dito livro, logo preso! Um barbudo cadastrado, pinga-amores e desordeiro, um tal de Luís Vaz.

Comprimidos Literários , Prosa de Augusto Baptista
§
Titular da Autorização de Introdução no Mercado e Fabricante: http://www.correiodoporto.pt
Este folheto foi aprovado pela última vez no dia 31 de agosto de 2013

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