Realizar

«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo, a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!

(Alexandre O’Neill)

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Acabei de ler… #1 – Reinaldo Ferreira (Repórter X), “Memórias de um ex-morfinómano”

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Hunter S. Thompson

Hunter S. Thompson

Reinaldo Ferreira foi-me apresentado por um amigo como o”Hunter S. Thompson português”. Bom, será certamente aquilo que de mais próximo o nosso país viu nascer… Têm em comum a vida rocambolesca, recheada de viagens e aventuras, e a reportagem como vocação, mas excêntrica – imaginamos ambos num quarto de hotel, sob o efeito de algum estupefaciente (no caso do Reinaldo, não algum, mas a morfina), a inventar uma reportagem que, por percalço, não foi possível realizar convencionalmente…

Reinaldo, mais conhecido como Repórter X, foi um repórter da I República. Viveu ainda no período de formação do Estado Novo (morreu em 1935, aos 38), mas a formação intelectual, o estilo, a persona, deve tudo aos anos agitados da I República, de revoluções, contra-revoluções, atentados republicanos, clericais e anarquistas… É um personagem que traz um encanto, um aroma peculiar que julgava ausente das nossa literatura e galeria de figuras públicas… a de  um gosto pelo proibido, pelo excesso, pela provocação… em trajes de pós-guerra, com queda para as intrigas de crime e espionagem um tanto ou quanto macabras. Um gosto pelo escândalo, pela inconfidência, pelo inesperado, pelo choque. Foi um repórter sensacionalista, ávidamente lido, mas de um sensacionalismo poético, original. Explorava a curiosidade do público, mas a partir de uma vida desregradamente cosmopolita. Conhecia as grandes capitais europeias, a cujos costumes, personagens típicos e hábitos locais da polícia alude neste livro. É o tipo de jornalista do qual não nos importaríamos que as histórias não fossem verdadeiras, contando que fossem boas histórias!…

Cartaz do teatro parisiense Grang Guignol, especializado em horror gráfico, a que Reinaldo alude nas

Cartaz do teatro parisiense Grang Guignol, especializado em horror gráfico, a que Reinaldo alude nas “Memórias…”

Reinaldo foi ainda um percursor do cinema português, fundando a empresa “Repórter X Film” e realizando alguns filmes mudos de ação e comédia, tão bem sucedidos juntos do público como as suas reportagens… Um personagem fascinante, este gajo! E pensar que em poucos anos todo o panorama nacional estaria reduzido ao provincianismo e aos “bons costumes” conformistas e policiados…

Quanto ao livro propriamente dito: documenta a experiência de Reinaldo com a morfina, droga da qual era dependente e que acabou por o levar à morte. O livro é bastante episódico, narrando sobretudo casos individuais de outros viciados, do modo como adquiriram o vício, intercalado com as observações do autor sobre a droga, a sociedade, os seus padecimentos e luta contra o vício. Daí o que salta à vista é um quadro de uma sociedade que julgaríamos talvez nunca ter existido em Portugal: uma sociedade de dandys, de artistas e pseudo-aristocratas decadentes, de intrigas e de escândalos sussurados ao ouvido, mas conhecidos de toda a gente. E documenta a existência de morfinómanos, cocainómanos, até mesmo heroinómanos, muito antes de suspeitarmos deles. Ao longo da leitura tive reminiscências dos agarrados que pululavam, no final dos anos 90, pelo Porto, por Lisboa e pelos comboios que lá iam dar… E percebi finalmente o que ia dentro daquelas cabeças… ou melhor, daqueles corpos lacerados. Nisso, Reinaldo tem a honra algo dúbia de se igualar a figuras como Antonin Artaud ou Bela Lugosi, enquanto artistas agarrados ao cavalo numa época prematura. Não é um exemplo muito moral, mas é avant-garde! Não me repugna ser conterrâneo de um gajo que não só em decadência, mas também em talento, esteve à altura dos seus comparsas europeus!…

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A investigação

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Elogio da manhã

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Tenho sido um adorador muito sincero de Aurora, como os Gregos. […] Conta-se que havia caracteres gravados na banheira do rei Tching-thang com este objetivo: «Renovai-vos completamente a cada dia, fazei-o outra vez e outra vez e sempre outra vez.» Eu consigo entender a mensagem. A manhã traz de volta as épocas heróicas. […] A manhã, o período mais memorável do dia, é a hora de despertar. Eis que há menos sonolência em nós e, pelo menos durante uma hora, uma parte de nós desperta, descansando todo o resto do dia e da noite. Pouco se pode esperar desse dia, se é que podemos designá-lo como tal, para o qual não somos acordados pelo nosso Génio, mas sim pelas cotoveladas mecânicas de um qualquer criado, não somos acordados pelas nossas próprias forças e aspirações recém-adquiridas do interior, acompanhadas pelas ondulações da música celestial em vez de por sinais sonoros de fábricas e uma fragrância que enche o ar (para uma vida superior do que aquela em que adormecemos). Assim, a escuridão dá o seu fruto e prova ser importante, não menos do que a luz. O homem que não acredita que cada dia contém uma hora mais madrugadora, mais sagrada e mais boreal do que aquela que profanou perdeu a esperança da vida e está a enveredar por um atalho descendente e sombrio. Após uma suspensão parcial na sua vida sensorial, a alma do homem ou, melhor ainda, os seus órgãos revigoram-se a cada dia e o seu Génio procura novamente uma vida nobre. Todos os acontecimentos memoráveis, diria, dão-se nas horas matinais e numa atmosfera matinal. Os Vedas dizem que «todas as inteligências acordam com a manhã». A poesia e a arte, assim como as mais belas e memoráveis ações humanas, datam de tal hora. Todos os poetas e heróis, como Mémnon, são os filhos da Aurora e emitem a sua música com o nascer do sol. Para aquele cujo pensamento elástico e vigoroso consegue acompanhar o sol, o dia é uma manhã perpétua. Nem importa o que dizem os relógios ou as atitudes e tarefas do homem. A manhã é quando estou desperto e acontece um amanhecer dentro de mim. A reforma moral é o esforço para a libertação do sono. Por que razão fariam os homens tão pobre relato do seu dia se não tivessem andado a dormir? Não são tão pobres narradores. Se não tivessem sido vencidos pela sonolência, teriam realizado alguma coisa. Os milhões estão despertos o suficiente para o trabalho físico, mas apenas um em cada milhão está desperto o suficiente para o verdadeiro esforço intelectual, apenas um em cada cem milhões para a vida poética ou divina. Estar desperto é estar vivo. Nunca encontrei, até agora, um homem que estivesse desperto a cem por cento. Como poderia eu tê-lo encarado olhos nos olhos?

Henry David Thoreau, em “Walden – Ou a Vida nos Bosques” [retirado da edição parcial da quasi “Onde vivi e para que vivi”, tradução de Odete Martins”]

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A conquista da ubiquidade

“Tal como a água, o gás e a energia eléctrica, vindos longe através de um gesto quase imperceptível, chegam a nossas casas para nos servir, assim também teremos ao nosso dispor imagens ou sucessões de sons que surgem por um pequeno gesto, quase um sinal, para depois, do mesmo modo nos abandonarem.”

Paul Valéry, “A Conquista da Ubiquidade” (1928), em Pieces sur l’art.

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Etnocentrismo

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Foto: Ed van der Elsken.

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Hollywood Boulevard, L.A, 1977. Foto: Ann Summa.

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O verdadeiro significado de «arrogância»

Ok, admito que o título é algo sensacionalista. Não tenho nenhuma perspetiva especialmente iluminada sobre o tema, mas fiz uma pesquisa e refleti um bocadinho sobre a coisa.

O termo “arrogância”, tal como é usado no quotidiano, tem uma conotação negativa. Isso é um facto. A questão é a de saber se pode conter em si também um sentido positivo. Dizia o Diogo mais ou menos assim, a arrogância é necessária a todo o artista, que precisa afirmar o seu valor perante a indiferença do mundo. Será arrogância o termo mais adequado aqui?

Etimologicamente, arrogância tem uma origem jurídica. Ad rogare, em latim, parece indicar a reivindicação e apropriação de algo a que se julga ter direito. Significa então o acto de reclamar para si, tomar posse, correspondendo a um gesto de liberdade e insubmissão. O artista precisa libertar-se das pressões mundanas, e colocar a sua obra no mundo num acto afirmativo de insubmissão.

Todavia, arrogante, no sentido comum, é a pessoa que afirma uma superioridade que não possui realmente, ou toma para si (arroga-se) aquilo que só discutivelmente tem  direito. Essa é somente uma das possibilidades do ab rogare, mas foi aquela que, por corrupção do uso, permaneceu no léxico, formando-se de modo similar ao que a auctoritas dá não só autoridade mas também autoritarismo, quando a autoridade é meramente suposta e forçada.

Assim, a arrogância pode ser legítima quando corresponde à reivindicação de algo a que a pessoa tem direito, ou quando, no exemplo do artista, ele tem verdadeiramente o valor que julga ter, mas é um vício quando se a sua concepção de si mesmo e da sua obra não corresponder à realidade, sendo apenas uma pretensão de superioridade sobre os outros. Aí será «arrogante» no sentido comum da palavra, isto é, presunçoso.

Note-se que que, para o Cristianismo, um dos pecados capitais é a «soberba» (superbia), isto é, a pretensa superioridade sobre os demais, e não o «orgulho» ou a «arrogância», e podemos dizer que corresponde à arrogância ilegítima. Também a humildade excessiva pode ser entendida como uma forma de soberba, quando o indivíduo, não conseguindo aceitar ser mediano, afirma ser o pior para se destacar ou receber comentários consolatórios.

O artista, enquanto criador de uma obra original e que por isso choca com os valores estabelecidos, precisa libertar-se dessas amarras e afirmar a sua diferença e originalidade, e arrogar-se um estatuto de diferença (senão de superioridade, pois o facto de se ser um excelente músico, ou pintor, ou o que for, não faz de nós seres humanos, de uma forma geral, superiores aos outros).

E para finalizar, algumas palavras acertadas retiradas de outro blog, e da autoria de Alexandre Brandão da Veiga:

“Alguém que demarca as suas terras apenas para exercer os seus direitos pode não ser paradigma do absoluto cristão, mas está no seu direito. Sem mais não pode ser condenado por isso. Sejam as suas terras um minifúndio ou um império.

É evidente que a arrogância desagrada aos outros. Sobretudo quando é legítima. A ilegítima suscita o ridículo, a revolta, mas não tanto do desagrado. É evidente que Carlos Magno era desagradável para o rei dos Lombardos. Alexandre foi agastante para os seus generais. Beethoven desagradou a muitos. E Mozart estava longe de ser um santo para com quem o rodeava. Para já não falar desses grandes arrogantes que eram Churchill e De Gaulle, que tanto irritaram medíocres que os rodeavam.

A arrogância legítima é até a que deixa mais dor em quem a circunda. Não apenas ser pequeno, mas ter a nossa pequenez lembrada por terceiros, é doloroso. Mas essa dor diz mais sobre a pequenez de quem a sente que sobre a ilegitimidade de quem a provoca.

O problema da nossa época é o de não cultivar o sentido da propriedade, a noção da correcção da linguagem. As palavras são usadas debalde. Alguém as larga fora do campo adequado e todos as usam.

A demonstração negativa levou-nos tempo, mas foi necessária. Tantos usam incorrectamente a palavra “arrogância” que se tornou evidente que é dela que se trata. Mas existe arrogância legítima, já o vimos. E a arrogância tem cura, nem que seja pela sua satisfação.

Não é de arrogância que se trata, mas de grosseria. A grosseria está nos genes, cultiva-se em família, aperfeiçoa-se com o convívio. Passando o paradoxo: o grosseiro afina-se. Julga-se determinado e é apenas impulsivo, julga-se interveniente mas apenas o marca a inconveniência. Que as pessoas andem agastadas com a arrogância não percebo. Que a grosseria as repugne só aplaudo. Desde que não padeçam do mesmo vício.”

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