Alguns pensamentos sobre a evolução do espírito

(uma vez que não tenho mais nada que fazer)

 

O espírito está em permanente evolução, isso é algo que se me tornou óbvio. Costumava acreditar na inspiração – um momento em que via mais longe do que fora capaz de ver até então – mas sucumbia à ilusão de que estava a captar algo de fundamentalmente correto e definitivo. A crença de que num determinado instante de inspiração pudesse ter uma compreensão privilegiada da realidade, que não seria possível num momento normal, levava-me a um estado de excitação mental mas também de inquietação, de querer extrair o máximo que conseguisse desse instante de lucidez exacerbada, o que normalmente resultava numa profusão de pensamentos e num certo desequilíbrio por fadiga intelectual. A sensação de estar a ser iluminado, mas por uma luz demasiado forte, que incandesce e acaba por ofuscar. Agora percebo pelo menos que não se capta de uma só vez nenhuma realidade fundamental, pois o espírito (ou a capacidade de compreender) está em permanente evolução, ao ponto de quase parecer fútil tentar anotar a perceção de um pensamento. Se no futuro eu terei evoluído, não será mais lógico adiar a exposição do pensamento até ao momento em que ele tenha evoluído? E assim sucessivamente, em adiamentos consecutivos, teria uma certa lógica (estúpida porém), nunca dizer nada, muito menos escrever, a não ser por brincadeira.

Seria uma espécie de mutação do socrático “só sei que nada sei” para um “só sei que ainda não sei tão bem como saberei eventualmente”. A morte adviria e os pensamentos teriam o seu fim sem terem tido a estultícia de tentar captar o sentido da vida, ou se o tentassem, não chegariam a ser comunicados. Talvez nada de grave se perdesse, o sujeito pensante que eu sou teria vivido provavelmente de uma forma mais prática, com mais ação e menos teoria, mas, helas!, não é esse o meu temperamento.

Posso pelo menos dizer, no entanto, que compreender o pensamento como dinâmica já é compreender alguma coisa acerca da natureza do pensamento. E o pensamento é dinâmico porque a realidade também o é. Não existe um mundo estável à espera de ser captado e traduzido de modo mais ou menos fiel pelos filósofos, poetas ou o que for. Existe um contínuo evoluir de cada ser pensante, através do seu acumular de experiências sob o pano de fundo da memória, existe também um evoluir da humanidade de uma forma geral, ou pelo menos, em alguns momentos, em algumas sociedades. Existem também retrocessos individuais, civilizacionais e quiçá da espécie. Para além disso existe um universo (ou multiverso) que, não obstante a relativa ignorância do senso comum quanto às últimas teorias da astrofísica, parece estar tudo menos parado.

Mas, astrofísica e religião à parte, a realidade está em constante evolução enquanto aquilo que constitui o conjunto dos pensamentos, conhecimentos, perceções, sentimentos, desejos, etc., que o ser humano tem ou pode ter. Daí segue-se uma conclusão mais vital do que teórica: viver é percorrer um caminho, seguir uma dinâmica. Convém que seja evolutiva, para não ser um amontoado de movimentos físicos e mentais disparatados! O movimento parece ser então, o dado essencial sobre o qual parece ser preciso refletir, acerca do qual, no entanto, pouco pode ser dito. Ou só pode ser pensado e dito invertendo a tendência normal do pensamento, que é debruçar-se sobre coisas sólidas e imutáveis[1]. Mais fácil do que descrever a essência mutacional da realidade, é captar intuitivamente a realidade como fluxo no qual estamos imersos. Percebê-lo não deixa de ser uma iluminação, mas é uma iluminação impermanente, que contém em si a desiluminação. Não é algo que se possa agarrar e ter consciência permanente. Poder pode, mas não é isso que se chama viver. Viver é encontrar uma corrente significativa, num rio que vá dar a algum lugar mais vasto e solarengo, e onde se possa tomar banhos em pelota, encontrar peixes, mosquitos, lodo, etc.

E para falar de tudo e de nada de uma só vez, faltaria pensar no sono como a interrupção rítmica, quase ritual, da produção de sentido. Fará sentido fazer sentido das coisas para depois as esquecer e transfigurar no sonho, acordando no dia seguinte com novas questões? O facto de a vida ser um bocado absurda é algo sobre o qual vale a pena refletir, ou uma possibilidade irrisória que é mais sensato ignorar? Não sei, nem vou pensar mais nisso durante uns tempos. Chega de meditações metafísicas por uns tempos. Vou mas é dormir.

 

[1] Ler A evolução criadora de Henri Bergson, ou pressionar-me para acabar o meu artigo sobre o autor. Como é relativamente óbvio, andava a trabalhar nisso quando escrevi esta reflexão.

Iwase Yoshiyuki

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Mírame y sé color

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Iwase Yoshiyuki was born in 1904 in Onjuku, a fishing village on the pacific side of the Chiba peninsula, which encloses Tokyo Bay on the east. After graduating from Meiji University Law School in 1924, he took up lifelong pursuits, heading the family sake distillery and documenting the receding traditions of coastal Japan. In the late 1920’s Yoshiyuki received an early Kodak camera as a gift. Since the main livelihood of the town came from the sea he gravitated there, and soon found a passion for “the simple, even primitive beauty” of ama – girls and women who harvested seaweed, turban shells and abalone from beneath the coastal waters..
This way of life has now completely disappeared but Yoshiyuki’s photographs provide a stunning visual testament to these fascinating women. His total output is of a very hight standard but it is his photographs of the ama divers which are truly…

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Apresentação do livro “Mil Milhões de Centopeias”

Aconteceu no domingo, dia 23 de outubro (finalmente!), no salão da Secção Cultural da LAAC, em Aguada de Cima, Águeda, a apresentação do livro “Mil Milhões de Centopeias”, nascido das divagações publicadas neste blog. Foram convidados a apresentar a obra a minha irmã, Maria Vítor Santos, o designer David Gama (autor da capa) e o artista multisdisciplinar Bitocas. Tomou ainda a palavra, gentilmente, o Dr. Amorim Figueiredo.

No final o autor (eu!), deu uma sessão de autógrafos e ofereceu aos presentes um beberete com espumante e canapés. Foi um sucesso, como as fotos em seguida comprovam. E se o livro vinha a ser vendido de mão em mão e por via postal há cerca de duas semanas, com esta apresentação formal cumpriu-se um objetivo: tiragem de 100 exemplares esgotada!

Já não temos livros!… Mas pode ser que um outro dia, diferentes, outros hajam…

Entrevista na Rádio Nova Era

Fica em baixo o link para a entrevista que tive no dia 21 de outubro com a Maria Inês Santos na Rádio Terra Nova, no âmbito do programa “Conversas da Manhã”, a propósito do lançamento do livro “Mil Milhões de Centopeias”.

http://www.terranova.pt/content/conversas-da-manha?id=13232

Sobre o Nobel da literatura: pode a canção ser considerada um género literário?

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A propósito da recente polémica acerca da atribuição do prémio Nobel da literatura a Bob Dylan, a questão central parece ser: pode a canção ser considerada um género literário?

Qualquer definição (de literatura ou de qualquer outra coisa) é problemática e passível de discussão argumentativa. Mas, tomado de forma abrangente, o campo literário não pode deixar de incluir a canção, que por ser cantada não deixa de ser escrita nem de utilizar as palavras como meio expressivo. Por “literatura”, o meu dicionário indica a “arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa e verso”, enquanto a Wikipédia portuguesa fala da “arte de compor e expor escritos artísticos, em prosa ou em verso”, prosseguindo com considerações acerca da ligação da literatura à estética, que permite distinguir o texto literário do texto científico. Ambas as definições dão mais do que espaço para incluir a canção, que é uma forma artística composta, escrita e exposta em prosa ou em verso, e para além disso, cantada. A junção entre a música e a palavra existe desde sempre, e é redutor restringir à categoria estritamente musical todas as obras musicais. Se uma canção (ou outro género musical) é composta por música e letra, deve ser apreciada esteticamente a nível musical e literário, ou mais exatamente, como uma forma artística mista.

A Academia Sueca indica como critério para a atribuição do Nobel a criação “no campo da literatura do trabalho mais excecional com um pendor idealista” (traduzindo o  sueco den som inom litteraturen har producerat det mest framstående verket i en idealisk riktning por via do inglês, podendo traduzir-se a parte final também por “com uma direção ideal”). O mérito literário aparece aqui ligado ao idealismo,  o que pode levantar muitas outras questões, tais como definir idealismo, quais os critérios para considerar se um escritor é idealista, se Bob Dylan é ou foi idealista… O que queria fazer notar é que esta ligação do mérito literário ao idealismo levou, pontualmente, a Academia a atribuir o Nobel da literatura a autores que não se enquadram na perceção tradicional do que é a literatura.

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Podia citar mais exemplos, mas restrinjo-me a três razoavelmente bem conhecidos: a atribuição do prémio a filósofos como Henri Bergson (1927) e Bertrand Russell (1950), e a um político, Winston Churchill (1953). A citação da atribuição do prémio a Bergson indica “em reconhecimento das suas ideias ricas e vitalizadoras e da capacidade brilhante com que foram apresentadas”. Já Russell foi distinguido “em reconhecimento da sua escrita variada e significativa em que promove ideais humanitários e a liberdade de pensamento”, enquanto Churchill foi distinguido “pelo seu domínio da descrição histórica e biográfica bem como pela sua brilhante oratória na defesa dos valores humanos exaltados”.

Em que medida é que a Filosofia pode ser considerada uma forma literária, enquanto “arte de compor ou escrever trabalhos artísticos”? Não será a Filosofia (e em particular um autor dedicado à lógica e à matemática como é o caso de Russell) mais uma atividade científica do que artística? Verificamos assim nas escolhas da Academia sueca uma preocupação em, de tempos a tempos, baralhar as cartas, questionar a definição de literatura, e atribuir o prémio a autores que, em diversas áreas e de diversas formas, utilizaram a linguagem de uma forma inovadora e com reconhecido mérito humanístico. Neste contexto, a atribuição do Nobel a Dylan parece uma consequência lógica.

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Se de facto é raro que na música os textos adquiram relevância literária, é porque habitualmente a letra é colocada em segundo plano perante a música. Não é o caso de Dylan, em que acontece precisamente o inverso. Muitas pessoas indicam que lhes é indiferente a letra de uma canção, desde que gostem da música. Não partilho dessa opinião. Se uma canção tem uma letra, esta assume um papel na sua expressividade que não pode ser menosprezado. Mesmo quando o ouvinte ignora o conteúdo da letra, esta influencia a emoção e a expressividade do cantor, o que acaba por ter um impacto no ouvinte. Para gostar de Bob Dylan é preciso ter um domínio médio/avançado da língua inglesa, ou então apreciar as nuances típicas do cantor que é simultaneamente um contador de estórias, um cantor/escritor de canções. E diria mesmo que, provavelmente, é impossível gostar de Bob Dylan sem gostar de ler. Assim, do facto da canção raramente atingir valor literário, não se segue que não possa ser literatura. Tal como muita “literatura” não tem qualidade literária, isto é, poética – de criação de sentido, desvelamento da realidade, e entendimento do belo e do horrível através do uso da palavra. E é isso que acho que o Nobel 2016 faz exemplarmente.

bob_dylan_june_23_1978Para além disso, é sabido como desde tempos remotos a poesia e o canto estão intimamente ligados. Reagindo à atribuição do prémio, Salman Rushdie referiu o modo exemplar como Dylan se inscreve na tradição de bardos que tem raízes na figura lendária de Orfeu, passando por Safo, Homero, e pelos trovadores medievais. Se a poesia trovadoresca era cantada, e o Cancioneiro Geral, mais tardio,  já não o é, permanece o nome de “canção” para formas poéticas dotadas de um ritmo e de uma musicalidade. Poetas como Camões, Bocage ou Eugénio de Andrade escreveram “canções”, isto é, poemas com especial atenção à sonoridade e destinados a ser cantados ou lidos em voz alta.

Fora tudo isto, é indubitável que a atribuição deste prémio é uma provocação corajosa que provoca o debate sobre o que é a literatura, possivelmente também com a intenção de chamar a atenção de um público mais alargado para os prémios Nobel. A atribuição do prémio a Bob Dylan diminui as barreiras entre arte erudita e arte popular, e poderá levar a um aumento do interesse por outros vencedores do prémio, que nos anos recentes tem estado tão afastados do conhecimento do grande público. E isso parece-me bom para a literatura. Citando mais uma vez Salman Rushdie, “as fronteiras da literatura continuam a alargar-se, e é  entusiasmante que o prémio Nobel o reconheça”. Já em 2013 o crítico musical Bill Wyman reclamava o prémio que agora chegou, dizendo que “se a academia não reconhecer Bob Dylan – um bardo que  personificou a convulsão social mais significativa da segunda metade do século anterior – irá desperdiçar a sua melhor oportunidade de honrar um poeta pop”.

Um dos argumentos mais utilizados para criticar a escolha de Dylan é a falácia da “pista escorregadia”: se Dylan pode ser Nobel da literatura, porque não Leonard Cohen? Ou Tom Waits? Ou, já agora, Rui Reininho ou Tony Carreira. Mas a verdade é que, se Cohen andou lá perto (sendo um poeta premiado antes mesmo de começar a fazer canções), ninguém conseguiu de forma tão exemplar, no séc. XX, unir a arte popular da canção à poesia. E fê-lo de uma forma mais admirável por ter sido popular e ter tido uma carreira comercialmente viável indo sempre, numa direção ideal, contra as expetativas, as convenções e o populismo.

MusiCares Person Of The Year Tribute To Bob Dylan - Show

Perder o medo

Citação

“A melhor maneira de alcançar a consciência suprema é perder o medo da vida. Perder o medo ao que nos falta. Sair do terror económico. Perder o medo à loucura. Etc. Como é que se perde o medo? Dizendo-te: «Sempre que tenho que escolher entre fazer e não fazer, devo escolher fazer, ainda que me engane». Se nada faço frustro-me. Se faço e me engano, pelo menos fico com a experiência.”   

kittyandjodo

Alejandro Jodorowsky

                                                  

 

 

Bert Hardy

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Mírame y sé color

The eldest of seven children, Bert Hardy rose from humble working class origins in Blackfriars, London, leaving school at age 14 to work for a chemist where he learnt how to chemically process photos.

After selling 200 prints of King George V and Queen Mary passing by in a carriage, he went on to freelance for The Bicycle magazine, saving up to buy a second-hand, small-format Leica 35 mm camera which was to change his life.

Self taught and using the small Leica camera instead of the traditional larger press cameras, Hardy was recruited by the editor of Picture Post, Tom Hopkinson, in 1941. He went on to become the Post’s Chief Photographer, earning his first photographer credit for a February 1941 photo-essay about Blitz-stressed fire-fighters.

Hardy later served as a war photographer in the Army Film and Photographic Unit (AFPU) from 1942 until 1946, covering the D-Day landings in…

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