9 aforismos

O conhecimento é um movimento parcialmente bem-sucedido de tentar sair da ignorância.

*

Se todos pensássemos de forma correta, estaríamos de acordo sobre o fundamental. Mas acerca do que conversaríamos?

*

Eu percebo alguma coisa das coisas quando acompanho um movimento, e encontro um mundo onde ainda não havia entrado.

*

Uma vez que nos banhamos num rio é difícil esquecermo-nos dele.

*

Os seus belos seios, debaixo da t-shirt justa que os realça. Percebes mesmo que são dois, cada um deles portentoso e cheio de significado.

*

A inteligência é uma propriedade privada, e o espírito uma força inefável que nem as melhores religiões conseguiram colocar ao serviço da humanidade.

*

A burguesia julga que é a única coisa que existe e que não existe a burguesia.

*

Não é possível escrever um poema a uma rapariga bonita e esperar que no mundo tudo permaneça igual.

*

Hoje parece-me que se esticar os dedos toco algo invisível, que detrás do visível existem rastilhos para fogos de artifício, despistes, erupções vulcânicas e cutâneas. Existirá essa possibilidade em todos os dias (sendo que a maior parte do tempo os seres, embrutecidos, lhe passam ao lado), ou apenas quando algo, dentro da cabeça ou fora dela, funciona de modo impróprio e excecional?

Publicado em aforismos | Deixe o seu comentário

(a besta vai às compras)

sem brinde
sem cupão
despromovida

sem classe
sem consideração
desconhecida

mas não ignorada, não
como uma borbulha que crepita
uma nota infeliz na secção de sopros
a breve momentânea indigestão,
um arroto
algo que passa, nem acontece
de que se não fala

um pre que se receia sentimento
uma fatalidade de antanho
a tragédia anunciada que podia ser evitada
para glória da nossa associação comercial e filantrópica
realçando a nossa competência, integridade e empreensão,

lá vai ela, a besta,
com um sorriso nos lábios.

Publicado em pseudo-poesia | Deixe o seu comentário

Pensamento de um outro dia

As pessoas julgam-nos pelos nossos actos, mas aquilo que verdadeiramente somos é tudo aquilo que poderíamos ser – aquilo de que somos capazes, incluindo o que não é observável por não ser posto em prática.

O melhor amigo é aquele que consegue ver aquilo que nós não somos senão em potência.

Publicado em pensamentos | Deixe o seu comentário

Realizar

«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo, a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!

(Alexandre O’Neill)

Publicado em poesia | Etiquetas , | Deixe o seu comentário

A investigação

18326_10151281774104368_355858129_n

Publicado em fotografia | Deixe o seu comentário

Elogio da manhã

The-rays-of-the-morning-sun-mountains-and-trees_2560x1600

Tenho sido um adorador muito sincero de Aurora, como os Gregos. […] Conta-se que havia caracteres gravados na banheira do rei Tching-thang com este objetivo: «Renovai-vos completamente a cada dia, fazei-o outra vez e outra vez e sempre outra vez.» Eu consigo entender a mensagem. A manhã traz de volta as épocas heróicas. […] A manhã, o período mais memorável do dia, é a hora de despertar. Eis que há menos sonolência em nós e, pelo menos durante uma hora, uma parte de nós desperta, descansando todo o resto do dia e da noite. Pouco se pode esperar desse dia, se é que podemos designá-lo como tal, para o qual não somos acordados pelo nosso Génio, mas sim pelas cotoveladas mecânicas de um qualquer criado, não somos acordados pelas nossas próprias forças e aspirações recém-adquiridas do interior, acompanhadas pelas ondulações da música celestial em vez de por sinais sonoros de fábricas e uma fragrância que enche o ar (para uma vida superior do que aquela em que adormecemos). Assim, a escuridão dá o seu fruto e prova ser importante, não menos do que a luz. O homem que não acredita que cada dia contém uma hora mais madrugadora, mais sagrada e mais boreal do que aquela que profanou perdeu a esperança da vida e está a enveredar por um atalho descendente e sombrio. Após uma suspensão parcial na sua vida sensorial, a alma do homem ou, melhor ainda, os seus órgãos revigoram-se a cada dia e o seu Génio procura novamente uma vida nobre. Todos os acontecimentos memoráveis, diria, dão-se nas horas matinais e numa atmosfera matinal. Os Vedas dizem que «todas as inteligências acordam com a manhã». A poesia e a arte, assim como as mais belas e memoráveis ações humanas, datam de tal hora. Todos os poetas e heróis, como Mémnon, são os filhos da Aurora e emitem a sua música com o nascer do sol. Para aquele cujo pensamento elástico e vigoroso consegue acompanhar o sol, o dia é uma manhã perpétua. Nem importa o que dizem os relógios ou as atitudes e tarefas do homem. A manhã é quando estou desperto e acontece um amanhecer dentro de mim. A reforma moral é o esforço para a libertação do sono. Por que razão fariam os homens tão pobre relato do seu dia se não tivessem andado a dormir? Não são tão pobres narradores. Se não tivessem sido vencidos pela sonolência, teriam realizado alguma coisa. Os milhões estão despertos o suficiente para o trabalho físico, mas apenas um em cada milhão está desperto o suficiente para o verdadeiro esforço intelectual, apenas um em cada cem milhões para a vida poética ou divina. Estar desperto é estar vivo. Nunca encontrei, até agora, um homem que estivesse desperto a cem por cento. Como poderia eu tê-lo encarado olhos nos olhos?

Henry David Thoreau, em “Walden – Ou a Vida nos Bosques” [retirado da edição parcial da quasi “Onde vivi e para que vivi”, tradução de Odete Martins]

Publicado em pensamentos | Etiquetas , , | Deixe o seu comentário

A conquista da ubiquidade

“Tal como a água, o gás e a energia eléctrica, vindos longe através de um gesto quase imperceptível, chegam a nossas casas para nos servir, assim também teremos ao nosso dispor imagens ou sucessões de sons que surgem por um pequeno gesto, quase um sinal, para depois, do mesmo modo nos abandonarem.”

Paul Valéry, “A Conquista da Ubiquidade” (1928), em Pieces sur l’art.

Publicado em pensamentos | Etiquetas , , , | Deixe o seu comentário