Anatomia da errância

Aos poucos vai concretizando a velha ideia de escrever um livro. A sua primeira tentativa, que acabou por considerar demasiado confusa, é uma obra sobre o nomadismo, uma espécie de anatomia da errância. Nela, Chatwin defende que o Homem, ao adquirir a posição ereta e a forma de caminhar de pé terá, em simultâneo, desenvolvido um instinto migratório que o leva a percorrer grandes distâncias. Defende que, quando contrariado pela vida sedentária, este instinto acaba por ser manifestar em outras formas de violência, a procura de estatuto social ou a obsessão pela novidade. Será esta a razão que leva as sociedades móveis como os ciganos, a serem igualitárias, despojadas de bens materiais e resistentes à mudança. Também por este motivo, os grandes mestres espirituais, a fim de restabelecer a harmonia do estado original, colocam a migração perpétua no cerne da sua mensagem.

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Pensamento de um outro dia

A maior parte das pessoas vive de acordo com princípios que mal consegue pensar e muito menos formular claramente.

Um princípio que se recusa a ser dito é um princípio poderoso porque mistifica. Torna-se um princípio semi-inconsciente, que não é pensado com precisão, deixa de ser racionalizável. Torna-se um preconceito, um instrumento de discriminação. Uma metáfora do ódio.

Por detrás do óbvio que é invocado para justificar o silêncio, esconde-se a força e o poder arbitrário, que se furta à consideração judiciosa, porque a pode dispensar.

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A mente da matéria

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Uma discussão favorita que eu tinha com Francisco Freire era sobre a mente da matéria. Segundo o seu inimigo, que era um poeta de Amorim, terra de muito boas lavadouras e vinho enforcado, os objetos construídos pelo homem tinham recebido uma espécie de alma capaz de reagir ao próprio homem. O poeta de Touguinhó dizia que fora, por assim falar, vítima de várias experiências, algumas que quase lhe custaram a vida e que estavam no caminho da ficção científica e dos contos de Lovecraft. Por exemplo, ele não guardava nunca um carro mais de dois anos, porque temia o seu relacionamento com ele. Ele tornava-se facilmente desbocado, como ele dizia, e podia causar desastres verdadeiramente inexplicáveis. A matéria reage ao homem que a manipula, como o homem reage ao seu criador.

Mas no que mais insistia o poeta, que se chamava Bernardino (não confundir com Bernardim, que esse era outra coisa), era no comportamento sexual das pessoas, sujeitas a pressões constantes e a irradiações da matéria que se acumula nas grandes cidades. Quanto mais as cidades se cobrem de engenhos e de preciosas invenções que facilitam a vida às pessoas, ascensores e escadas rolantes, telemóveis e máquinas de distribuir cigarros e preservativos, tanto mais a atmosfera se torna densa, implacável na sua interferência com os neurónios humanos. Subitamente, alguém é afetado como o computador dum vírus e o seu comportamento torna-se imprevisível. Eu defendia a teoria do poeta Bernardino, de Amorim, e achava que Maria Adelaide fora atacada pela irradiação da matéria e lutava contra isso de todas as maneiras possíveis. […]

É possível que Maria Adelaide tenha inflacionado a sua comitiva. De uns para outros passou essa chama que está na origem da paixão erótica. Até os animais e as plantas entendem essa linguagem que envolve todo o processo da criação. Uma mulher apaixonada faz florir uma roseira enfermiça e faz milagres ao ponto de humanizar até uma galinha no curral. Transforma-a em cão de guarda, dá origem nela a um comportamento agressivo e exaltado. […] Essas pessoas, quando se apaixonam, transmitem uma espécie de aura erótica a todos os seres que as rodeiam. […]

É inquietante pensar que andam pelo mundo criaturas às vezes ignoradas mas que têm um poder enorme sobre as outras e, sem o saber, conduzem os acontecimentos mais devastadores da humanidade: as suas guerras, as suas convulsões que produzem a alteração do mapa da Terra. Não são as pessoas mais em evidência, os chefes de qualquer estado e os condutores dos povos, os profetas, os filósofos, que contribuem para as grandes mudanças. É essa pessoa anónima, que se introduz como um vírus no labirinto das relações pautadas pelas leis e pelos costumes, quem decide, quem executa, quem delibera quase só pela escura matéria que é a força do desejo.

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9 aforismos

O conhecimento é um movimento parcialmente bem-sucedido de tentar sair da ignorância.

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Se todos pensássemos de forma correta, estaríamos de acordo sobre o fundamental. Mas acerca do que conversaríamos?

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Eu percebo alguma coisa das coisas quando acompanho um movimento, e encontro um mundo onde ainda não havia entrado.

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Uma vez que nos banhamos num rio é difícil esquecermo-nos dele.

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Os seus belos seios, debaixo da t-shirt justa que os realça. Percebes mesmo que são dois, cada um deles portentoso e cheio de significado.

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A inteligência é uma propriedade privada, e o espírito uma força inefável que nem as melhores religiões conseguiram colocar ao serviço da humanidade.

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A burguesia julga que é a única coisa que existe e que não existe a burguesia.

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Não é possível escrever um poema a uma rapariga bonita e esperar que no mundo tudo permaneça igual.

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Hoje parece-me que se esticar os dedos toco algo invisível, que detrás do visível existem rastilhos para fogos de artifício, despistes, erupções vulcânicas e cutâneas. Existirá essa possibilidade em todos os dias (sendo que a maior parte do tempo os seres, embrutecidos, lhe passam ao lado), ou apenas quando algo, dentro da cabeça ou fora dela, funciona de modo impróprio e excecional?

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(a besta vai às compras)

sem brinde
sem cupão
despromovida

sem classe
sem consideração
desconhecida

mas não ignorada, não
como uma borbulha que crepita
uma nota infeliz na secção de sopros
a breve momentânea indigestão,
um arroto
algo que passa, nem acontece
de que se não fala

um pre que se receia sentimento
uma fatalidade de antanho
a tragédia anunciada que podia ser evitada
para glória da nossa associação comercial e filantrópica
realçando a nossa competência, integridade e empreensão,

lá vai ela, a besta,
com um sorriso nos lábios.

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Pensamento de um outro dia

As pessoas julgam-nos pelos nossos actos, mas aquilo que verdadeiramente somos é tudo aquilo que poderíamos ser – aquilo de que somos capazes, incluindo o que não é observável por não ser posto em prática.

O melhor amigo é aquele que consegue ver aquilo que nós não somos senão em potência.

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Realizar

«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo, a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!

(Alexandre O’Neill)

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