«Nunc est bibendum…»

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Bebamos! Porque aguardamos as lucernas? Já só há
um palmo de dia. Retira, célere, dos pregos, as grandes taças.
O vinho que dissipa aflições, doou-o aos homens o filho
de Zeus e Sémele. Deita-o nas taças, uma parte para duas,
cheias até à borda, e que um cálice
empurre o outro.

(frg. 346 Lobel-Page)

 

Alceu (poeta grego, sécs. VII/VI a.C.). Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

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Um jardim + A noiva

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 um murmúrio de águas frescas, através

dos ramos das macieiras, as rosas ensombram
todo o solo, e das folhas trémulas
escorre o sonho.

(fr. 2, vv. 5-8 Lobel-Page)

 

Tal uma doce maçã rubra, que brilha no alto dos ramos,
mesmo no cimo de tudo, esquecida dos que andavam na colheita,
- esquecida não, é que não conseguiram atingi-la.

(frg. 105 Lobel-Page)

 

Safo (poetisa grega, sécs. VII/VI a.C.). Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

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Primavera

Na Primavera florescem os marmeleiros
e as romãzeiras, regadas
pelas águas dos rios,
lá onde fica das Virgens o jardim imaculado,
e os gomos das videiras crescem sob os rebentos
umbrosos dos pântanos; mas a mim o Amor
não me dá estação alguma de descanso:
como o trácio Bóreas, deflagrando
com o trovão, soprando do lado de Cípria,
com loucura devastadora,
tenebroso e sem peias,
sacode de alto a baixo com força
o nosso coração.

(frag. 6 Diehl)

 

Íbico (poeta grego do séc. VI a.C., que por acaso parece que era panilas). Tradução da MHRP (props).

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Existe o Sol, existe trabalho para fazer, existe boa música para ouvir e por vezes é possível ouvi-la enquanto se trabalha. Há, por vezes, o mau tempo, que nos testa a paciência.

Terei descoberto o sentido da vida?

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Hegel sonhava…

Hegel sonhava, a sua arrogância sublimada, e a dialética era jogo, entre crença e ceticismo, o espírito absoluto divagava, entre ser e não ser, mudava de cor com a paisagem sonhada, e a temperatura do sangue era oscilante.

Os quadros dependuravam-se da parede e cumprimentavam-no, o velho duque de Würtemburgo assustava-o com as suas barbas pretensiosas, os cães de uma cena de caça aninhavam-se a seus pés, pedindo uma carícia ou um osso, e o eu que fora Hegel rejubilava de omnipotência diminuída e modesta. Ao acordar, porém, descia sobre Hegel a sisudez nas faces, e o sentido da missão grandiosa, e sobre a ideia da consideração dos homens se erguia o seu vulto, cheio de orgulho e motivação para dominar o real e engarrafá-lo.

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Um devaneio num copo de vinho

O meu ideal de funcionamento cerebral (a.k.a. pensamento): uma rotação constante, um prodígio de memória aleatória. Substantivos, verbos e adjetivos unindo-se em combinações inéditas, espontâneas, a cada instante. A cada pensamento, frase ou processo mental, o real revela uma faceta ou modifica-se.

As mentes deixariam assim de seguir trilhos de terra batida cheios de calhaus-comuns, a comunicação – a existir – deixaria de basear-se em ajuntar água na massa, sendo antes algo mais como o fluir da luz pelo dia e pela noite, pelas superfícies refletoras, pelas erupções dos vulcões. Um mundo-inteligência-energia, mentes-circuitos de ativação/desativação e sintonização entre real, sonho, êxtase e delírio. Tudo isto enquanto, tranquilamente, tomássemos uma bica e discutíssemos a bola.

E é o que já acontece, nalguns momentos bem aventurados, na tasca do sr. Joaquim, quando o encontro de bom humor. Seja pelas complicações conjugais ou pela qualidade duvidosa do seu extrato de uva, o sr. Joaquim, nas suas palavras e nos seus olhos, por detrás das lunettes, fala ocasionalmente a linguagem dos astros e dos germes em ação sob a epiderme da terra.

Por um mero acaso, enquanto o sopro não decai e o espírito se embrutece com sandes de chouriço.

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Jorge Luis Borges: “Arte poética”

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como um rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

tradução de Ruy Belo, in JL Borges, “Poemas escolhidos” (Dom Quixote, 1971)

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