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(alguns excertos)

 

Absurdo – É um gigante anão, misto de rã e de cachalote, com asas de boi, unhas de sardinha, pentes de leão e dentes de galinha.

Ambidextro – Significa destreza à direita e à esquerda: homem hábil Rollei Digital Cameracom as duas mãos;
touro que marra exato com qualquer dos cornos; muar rigoroso a escoucinhar com ambas as patas; jacaré que abocanha com igual desembaraço para os dois lados.

Anjinhos – Pequenos acrobatas do trapézio voador do céu.

Baleia – Transatlântico movido a plâncton.

Bébé – Um mamífero.

Bicho-do-mato – Dois olhos a espreitarem por detrás da cortina.

Rollei Digital CameraBoi – Vagarento navegante em viçosos vergéis, vive em vacarias povoadas de graves individualidades vacuns: vacas, novilhos, vitelas. Um b entre vv, vegetariano equívoco.

Borboleta – Um tremor de terra, do outro lado do mundo, aqui se torna breve, pressentida vibração, nas asas da borboleta.

Cão – Um rabo a sorrir.

Centopeia – A bem dizer um comboio, a circular em bicos de pés.

Coaxos – Declarações de amor, nas férias grandes.

Crocodilo – O eterno pequerrucho da mamã.

Dançarino – Gato a evoluir à roda das pernas da dona na volúpia do prato de carapau, a evoluir à roda na volúpia do prato de carapau, a evoluir à roda na volúpia do carapau, a evoluir à roda na volúpia, à roda na volúpia, à roda, à roda, gato a evoluir à roda do prato de carapau na volúpia das pernas da dona.

Dúvida – O que terá aparecido primeiro: o anzol ou o peixe grelhado?

Rollei Digital CameraEnxame – Proletariado da indústria do néctar.

Estrelas – De olhos acordados, com medo do escuro.

Galo – Despertador que dá para assar.

Hidra – Monstro de sete cabeças. Quando amante do Sol, leva os pais à falência: cremes, chapéus, óculos, gelados, chupa-chupas.

Leoa – Vero rei dos animais; o leão é mais ronco, mais juba.

Mãe não mente – O rinocerontezinho, olhar fixo no hipopotamozinho:
– Que menino feio, mamã!
– Com um corno no focinho, tu também és cá uma beldade! Coisas há mais importantes.

Namorados – Em África, há um casal que todos os dias sobe à montanha para ver o por-do-Sol. No cume, ambos quietos a olhar, o que dirão um ao outro, os chimpanzés?

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Pescadinha-de-rabo-na-boca – Peixinho contorcionista.

Quadrúpede – Bípede de quatro patas.

Quebra-luz – Dono da casa, chinelo na mão; no candeeiro, o moscardo.

Quiquiriqui – Um frango a armar ao galo.

Raposo Sardinha – O jovem Raposo Sardinha, herdeiro da empresa Barata Lobo e conceituado gerente da fábrica Galo, Formiga & Grilo, casou com dona Marta Pavão, proprietária da firma Coelho Leão, Lda. O faustoso enlace foi marcado por infaustos desenlaces e cenas: Raposos a dilacerarem em plena boda Coelhos, Leões em ajustes de contas com Lobos, Pavões a perseguirem o ramo dos Grilos, Galos a espavorirem Sardinhas, Formigas e Baratas no assédio ao bolo.

Ri – Ri de quê, o noceronte?Rollei Digital Camera

Sapo vulgar – Um príncipe desencantado.

Touro – Onde se meteu, o valente?!

Vaccinar – Quando se escrevia assim, significava «inocular a vaccina no corpo humano para o preservar das bexigas». Vejam como a palavra evoluiu, no lapso da queda de um c.

Vírus – Grupo radical mundialmente popular.

W – Dois cervídeos, apaixonados.

Zoo – Éden com grades.

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Gulliver explica o que é a lei e a justiça a um Houyhnhnm

gulliver

 

 

 

 

 

 

 

(…) Pediu-me … que lhe explicasse mais pormenorizadamente o que eu entendia por lei e qual o papel dos legisladores, de acordo com o que se usava no meu país. (…)

Respondi-lhe que a lei era toda uma ciência, sobre a qual o pouco que sabia adquirira-o pelo contacto com alguns advogados, consultados, em vão, por mim, na resolução de determinadas injustiças feitas contra mim. Mas que, no entanto, tentaria elucidá-lo o melhor que podia sobre o assunto.

Contei-lhe que havia entre nós uma determinada classe de homens, instruídos desde jovens na arte provar por palavras que “branco” era “preto” e “preto” era “branco”, consoante o que se lhes pagava; e que deles todo o resto da sociedade dependia numa escravidão absoluta.

Por exemplo, se um vizinho meu se lembrasse de cobiçar a minha vaca, contratava um advogado para provar que a vaca, que era minha, devia ser dele. Eu, por meu lado, não tinha outro remédio senão contratar um outro advogado que defendesse os meus direitos sobre a vaca, uma vez que, por lei, não é permitido um homem constituir a sua própria defesa. Ora, neste caso particular, eu, que sou o verdadeiro dono da vaca, estou em grande desvantagem, por duas razões: primeiro, porque tendo o meu advogado praticamente defendido a falsidade desde sempre, encontra-se um pouco fora do seu elemento na defesa da justiça, função pouco natural, que ele encara com embaraço, se não com má vontade; e, segundo, porque o meu advogado se vê obrigado a agir com todo o tacto, correndo o risco de receber alguma repreensão da parte dos juízes ou ser posto de lado pelos seus confrades, por, no desempenho do seu papel, ter minorado a prática da lei. E assim, para conservar a minha vaca, só tenho duas alternativas: ou subornar o advogado do meu adversário, que nessa altura trairá o seu cliente, ou, então, convencer o meu advogado a apresentar injustamente a minha causa, o que, se for feito com habilidade, convencerá os juízes a meu favor.

Estes juízes, continuei, são pessoas designadas para decidir em última instância sobre as questões de bens e nos julgamentos dos criminosos. São escolhidos entre os advogados que mais se distinguiram ao longo da sua carreira, mas que, já idosos, anseiam acima de tudo pelo seu sossego. E, como sempre viveram enganando a verdade e a igualdade, vêem-se com uma fatal necessidade de favorecer a fraude, o perjúrio e a opressão. Conheci alguns deles que chegaram, mesmo, a recusar avultados subornos da parte daqueles que tinham por seu lado a justiça, exclusivamente para não irem contra a sua natureza e ofício.

É uma máxima entre os advogados que tudo o que foi feito pode legalmente ser de novo repetido, tomando eles, nesse sentido, um cuidado especial em registar todas as decisões feitas contra a justiça comum e direito geral da humanidade, que eles designam por “precedentes” e apresentam a justificar as opiniões mais perversas, que os juízes raramente deixam de aceitar.

Quando em debate, muito artificialmente evitam referir os “méritos” de uma causa, para, sonoros, violentos e enfadonhos, atacarem todas as “circunstâncias”, mesmo as que não vêm a propósito. E assim, voltando ao exemplo dado anteriormente, não se interessam em saber quais os direitos do meu adversário sobre a vaca, mas se a dita vaca é vermelha ou preta, se os seus chifres são longos ou curtos, se os pastos onde a mantenho em liberdade são circulares ou quadrados, se ela é ordenhada dentro ou fora do estábulo, a que doenças está sujeita e outras coisas mais. Passada esta fase, consultam “precedentes” e vão adiando a causa, até que, passados dez, vinte ou trinta anos, chegam finalmente a uma conclusão.

Faz esta sociedade uso de uma linguagem muito peculiar, tanto no fraseado como no modo de expressão, de compreensão impossível para o profano. Nela estão escritas todas as suas leis, que eles têm tido um cuidado especial em multiplicar, e com ela lançam a confusão entre a verdade e a mentira, o bem e o mal. Não é de estranhar, portanto, que sejam precisos perto de trinta anos para determinar se a propriedade que me foi deixada pelos meus antepassados de há seis gerações me pertence a mim ou ao estranho que se encontra a três milhas de distância.

No julgamento de pessoas acusadas de crime contra o Estado, o processo é bem mais breve e recomendável: o juiz começa por se informar sobre a disposição dos que se encontram no Poder, depois do que tem toda a liberdade para enforcar ou salvar o criminoso, desde que preserve com rigor o aspeto exterior da lei.

Fui nessa altura interrompido pelo meu amo, que lamentou que criaturas tão generosamente dotadas de capacidades intelectuais, como estes advogados que eu descrevera, não se sentirem chamadas antes a participar aos outros toda a sua sabedoria e conhecimento. Respondi-lhe que não se iludisse, que, no seu ofício, eles eram os mais ignorantes e estúpidos, incapazes de manterem uma conversa sem artifícios, inimigos declarados de qualquer manifestação de conhecimentos ou cultura e dispostos a perverterem tudo o que não dissesse respeito à sua própria profissão.

 

Jonathan Swift, “As Viagens de Gulliver” (1726), Parte IV – Viagem ao país dos Houyhnhnms, cap. V. Páginas 265-268 da edição Biblioteca Visão.

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Sonho de um burocrata filantropo

… destruir todas as faturas do mundo e todos os recibos, registos e arquivos de semelhantes, todos os processos e requerimentos, todas as fardas de serviço, todos os uniformes, e queimar tudo numa grande fogueira à volta da qual nos banqueteássemos e regozijássemos com as coisas boas da vida (comida, bebida, saúde, amor, alegria, o trabalho quando tendo uma finalidade útil, etc.). Num gesto ritual todos os burocratas, funcionários, secretários, rececionistas, técnicos de contas, advogados, juízes, fiscais, etc., despem as suas fardas e juntam-nas ao lume. Em seguida todos dançam à sua vontade, com ou sem jeito, sem grande preocupação com o virtuosismo na coreografia ou pela impressão causada uns nos outros.

E a partir daí avançar para um mundo novo, como não sei… isto é só um sonho…

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Nota: O presente escriba foi uma espécie de burocrata em treino durante uma ou duas semanas, e ao 3º dia de trabalho semi-oficial (hoje), para o qual estaria prevista a assinatura de um contrato, começou a escrever este pequeno texto num minuto parado do serviço. Acabou o mesmo já em casa, depois de uma boa soneca, tendo sido despedido ainda a meio do turno da manhã. Um burocrata sonhador foi despedido, e o mundo ficou um lugar (ligeiramente) mais respirável por causa disso. Tudo fica bem quando acaba bem.

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It’s my blog and I cry if I want to

Trabalhar é fodido. A minha patroa é uma besta quadrada. Hoje no intervalo fui beber uma cerveja a uma tasca ranhosa e disse ao borracholas desempregado do lado uma frase que soou bem, passo a citar(me): “O trabalho é como as mulheres, um gajo não está bem com ele nem sem ele”.

Algo assim. O que foi uma comparação improvisada de uma frase de alguém sobre as mulheres. Depois voltei para fazer metade do turno da minha colega depois de já ter feito o meu completo, para ser durante mais umas horas sodomizado espiritual e em sentido não literal fisicamente também pela patroa e staff em geral, enquanto divagava mentalmente sobre jams musicais intermináveis, a alegria de ver uma planta comestível ou decorativa brotar, a vontade de ler “O progresso da civilização” de Norbert Elias como parte do meu estudo inacabável sobre a natureza humana, planos rocambolescos acerca de como fazer uma pipa de massa com o mínimo de esforço, e outras coisas com as quais os desempregados profissionais se entretêm.

Por desempregado profissional não me refiro a quem vive à pala do estado, mas antes ao poeta vagabundo, refratário do sistema que por isso mesmo desempenha a função mais nobre, útil e meritória possível à humanidade. “O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser poeta à solta” (Agostinho da Silva, in Conversas Vadias – RTP). Mas, de momento, vou ter de adiar esse meu sonho profissional e continuar a dar o coiro por uma causa em que não acredito. E ainda não sei se fico com a merda do trabalho, ando a dar o coiro à pala, e se mo derem, sentir-me-ei um bocado como o Messi a receber a Bola de Ouro do Mundial: é bonito, fica para a história (currículo), mas de momento não me alegra muito.

Melhor parte de trabalhar: já ter saído do trabalho! Oh que alegria. Devo ter uma grande espinha de cristianismo atravessada na garganta para precisar de sofrer durante 1o horas para no tempo restante sentir um enorme prazer por ter passado por esse martírio. É que o tempo livre se torna tão precioso e é tão necessário aproveitá-lo bem, que logo me inundo de alegria se encontro um amigo para conversar, de inspiração se encontro uma guitarra à mão, e a cerveja sabe melhor, e assim por diante.

Podia ficar a divagar sobre o tema durante horas, mas de momento só posso dispor de 20 minutos (já vai em 30 com as emendas) das minhas 2 horas de descanso de hoje – excetuando o sono – a escrever este semi-lamento enquanto ouço um disco antiguinho de Frank Zappa & the Mothers of Invention (aquele que tem a Calling all the Vegetables -eheh – esta faz-me lembrar da técnica do Dani – rio-me sozinho)

O meu trabalho (que ainda não é meu) é espetacular, eu é que sou mentiroso (não choro), mas a minha patroa é mesmo uma besta.

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Eu te saúdo, velho oceano!

Velho oceano, à tua primeira aparição, um sopro prolongado de tristeza, que acreditaríamos ser o murmúrio da tua brisa suave, passa, deixando traços indeléveis sobre a alma profundamente abalada, e tu recordas à memória dos teus amantes, sem que disso sempre nos demos conta, os rudes começos do homem, em que travava conhecimento com a dor, que jamais o deixa. Eu te saúdo, velho oceano!

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Velho oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra o rosto sisudo da geometria, lembra-me somente muito os pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali pela pequenez, e aos dos pássaros noturnos pela perfeição circular do contorno. Porém, o homem julgou-se belo em todos os séculos. Eu suponho antes que o homem não acreditou na sua beleza senão por amor próprio; mas, que não é realmente belo e que duvida, pois porque olha ele a figura do seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho oceano!

Velho oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não te alteras de modo essencial, e se as tuas vagas estão nalguma parte em fúria, mais longe, nalguma outra zona, elas estão na calma mais completa. Tu não és como o homem, que pára na rua para ver dois buldogues a agarrarem-se pelo pescoço, mas que não pára quando um enterro passa; que está esta manhã acessível e noutra de mau humor; que hoje ri e amanhã chora. Eu te saúdo, velho oceano!

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Velho oceano, não haveria nada de impossível naquilo que tu guardas no teu seio de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe deste a baleia. Tu não deixas facilmente adivinhar aos olhos ávidos de ciências naturais os mil segredos da tua organização íntima: tu és modesto. O homem vangloria-se continuamente, e por ninharias. Eu te saúdo, velho oceano! Continuar a ler

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Bochecha inchada

Bochecha inchada, adeus dente do siso,  olá cara 50% de João Soares, prefiguração do meu possível futuro ser aburguesado.

Bochecha inchada. Olho-me ao espelho e vejo-me de outra maneira. Imagino que quem me vir do lado esquerdo me verá de outra maneira. Se eu tivesse duas bochechas assim seria uma pessoa diferente? Sim, na medida em que os outros me veriam com outra forma, e a forma com que os outros nos vêem acaba por ser mais ou menos interiorizada e afeta o eu e a forma como nos imaginamos. A forma das bochechas determina a gama das expressões plausíveis, os diferentes disfarces que se torna necessário aprender, e as maquilhagens compensatórias.

O eu que eu sou começa na ponta do meu nariz, passa pela largura da testa, o tamanho das orelhas, a proeminência do queixo, o diâmetro momentâneo do estômago, a rigidez dos músculos, etc., até à ponta dos pés. O eu que sou começa com tudo isto a emergir no mundo e a praticar ações de conquista/defesa/colonização/saque/e fuga.

Mas detrás do nariz/ponto de mira e dos olhos, está a anima que dá forma à matéria. Não me refiro aos contornos e seu preenchimento, mas à inteligibilidade. Eu sou o modo como escolho/consigo usar o meu nariz, pés, sexo, etc. Eu sou o modo como ponho o meu nariz no mundo. Ele está lá necessariamente, mas eu decido se o torço, levanto para cima… Eu sou esse nariz e o pensamento que o apresenta.

(de momento não consigo libertar-me de um certo dualismo que aqui está latente)

Enfim, tudo virá eventualmente a seguir a sua progressão natural… A bochecha desinchará, o corpo continuará a transformar-se e a envolver-se em trocas e lutas com o mundo, as quais terminarão fatalmente com a desintegração de um ou do outro.

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O progresso do borracholas. Do primeiro copo até à campa.

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Passo 1: Um copo com um amigo.

Passo 2: Um copo para afastar a constipação.

Passo 3: Um copo a mais.

Passo 4: Bêbedo e desordeiro.

Passo 5: O cume alcançado. Animados companheiros. Um borracholas inveterado.

Passo 6: Pobreza e doença.

Passo 7: Esquecido pelos amigos.

Passo 8: Desespero e crime.

Passo 9: Morte por suicídio.

 

E, claro, é o bebé mimado e chorão que se torna no adolescente escapista que é o adulto alcoólico e o suicida de meia idade.

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